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segunda-feira, 30 de setembro de 2013

RELIQUIAE



Título dado a este livro por Guido Battelli,
 que ficou depositário destes originais após
 a morte da poetisa. Foi publicado, como apêndice,
 nas 2ª e 3ª edições de Charneca em flor.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

A MENSAGEIRA DAS VIOLETAS


"Sou aquela que passa e ninguém vê...
 Sou a quem chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber por quê..."

 "A Mensageira das Violetas", Florbela Espanca, a maior poeta portuguesa, e uma das maiores vozes femininas da poesia mundial, mostra sua intensidade em seus famosos lamentos. Florbela deixa o leitor empolgado com cada final de seus sonetos, altamente intensos, ritmados , simples, e com a exposição máxima e única característica da poeta.

Em "A mensageira das violetas", o leitor depare-se com uma poeta melancólica, que deposita todo seu ar na poesia, e que questiona seus versos, e até mesmo o seu amor, diante do desprezo o amado.

 Antologia.
 Seleção e edição de Sergio Faraco.
 Porto Alegre: L&PM, 1999.



TROCANDO OLHARES


A 10 de Maio de 1915, Florbela inicia um caderno a que chama
 «Trocando Olhares», e onde vai guardando a sua produção em poesia
 e em prosa. Devido às dificuldades económicas que enfrenta na altura
 e que a obrigam a mudar-se, com o primeiro marido, Alberto Moutinho,
 para a casa do pai, Florbela, juntamente com ele, passa a dar aulas
 num colégio; em virtude de todos estes problemas, interrompe a
escrita do caderno, que apenas retoma em Novembro. Num ano e meio,
 Florbela escreve 144 poesias, uma dedicatória em verso e três contos,
 «A Oferta do Destino», «Amor de Sacrifício» e «Alma de Mulher»,
 mas apenas quatro poesias virão a ser publicadas. «Trocando Olhares» 
engloba também «O Livro D’Ele», «A Minha Terra» e «O Meu Amor».

«Trocando Olhares» é um livro que evidencia uma certa dispersão,
 embora seja bastante ambicioso, conseguindo alguns pormenores
 estilísticos bem achados, como a primorosa abertura do soneto 
«Crisântemos» e as quadras de «Saudades e Amarguras». 
Referência, igualmente, à influência da poesia neo-romântica,
 que surge nesta obra tocada de um certo casticismo, e evoluindo
 claramente do decadentismo de fim de século, presente através
do soneto «A Doida», mas que não tem seguimento neste 
«Trocando Olhares».

Em termos estilísticos, Florbela dá ainda primazia às quadras isoladas
 ou aos conjuntos de quadras, embora o papel do soneto ganhe já algum
 destaque, quase dominando o último quarto da obra.

No aspecto temático, Florbela aborda desde já o papel do amor, a sua
 importância, e a sua faceta de religiosidade, a par da tristeza de 
ser poeta, bem patente em «Saudades e Amarguras» e «Poetas»; revela 
também um acentuado desejo de evasão (ao jeito neo-romântico, como 
se vê em «Nunca Mais!»), ao lado de uma consciência firme de um 
destino pouco venturoso, como se constata em «O fado». Além disso,
 a poetisa manifesta um enorme fervor patriótico, tematizando o 
seu país e o deslumbramento que sente ao olhá-lo em sonetos como
 «Paisagem» ou nas quadras «No Minho», em que passeia pelo pitoresco
 dos lugares tradicionais. Ao mesmo tempo que se tenta libertar de
um tom confessional, Florbela mostra já sinais da emancipação 
iterária feminina que, mais tarde, preparará: subverte o erotismo
 tradicional, centrado no masculino, para um erotismo em que o eu
feminino da poetisa se afirma cada vez mais.

Em suma, já em «Trocando Olhares», Florbela se mostra uma poetisa 
muito singular, a anunciar uma Florbela mais madura. 


CHARNECA EM FLOR



Charneca em Flor é a obra-prima que Florbela Espanca nunca veria publicada,
 pois às vésperas da publicação, em dezembro de 1930, Florbela supostamente
 pôs fim à sua vida. Tal ato de desespero fez com que o público se 
interessasse pelo livro e passasse a conhecer melhor a sua obra.
 Dizem os críticos que a polêmica e o encantamento de seus versos é devida 
à carga romântica e juvenil de seus poemas, que têm como interlocutor 
principal o universo masculino.

Possivelmente, era para a autora, um livro de recordações, em que queria
 registrar as melhores lembranças da vida. Trata-se, sem dúvida, do livro
 em que Florbela melhor enfrenta a sua totalidade humana, ou seja, é aquele
 em que melhor consegue condensar as suas vivências, passando-as à poesia
 como nunca o fizera antes.

É em Charneca em Flor que melhor se define a sua sensibilidade, apresentada
 de modo complexo e intenso. Considerado como o seu livro mais sincero,
 é nele que Florbela retrata a fase mais difícil e pessoal da sua vivência
 como poetisa, e presta homenagem à sua terra natal. Segundo Antero de 
Figueiredo, o livro Charneca em Flor ficará como um dos mais belos 
depoimentos literários do coração português de ontem, de hoje, de todos
 os tempos (Revista Alentejana).

Intensa, insatisfeita, amarga, exaltada, sensual e mística (João Gaspar 
Simões, História da Poesia Portuguesa do Século XX) ao mesmo tempo,
 Florbela dá o melhor de si, distanciando-se das restantes poetisas.
 Definitivamente, Florbela contribui em Charneca em Flor para a
 emancipação literária da mulher e ousa levar ainda mais longe o 
erotismo no feminino, como o mostra Volúpia. Dá, por tudo isso,
 vida a sonetos tão raros como Charneca em Flor, Outonal, 
Ser Poeta e Amar!.

SONETOS COMPLETOS



 Somente duas antologias, Livro de Mágoas (1919) e Livro de Sóror Saudade (1923), foram publicadas em vida da poetisa. 
Outras, Charneca em Flor (1931), Juvenília (1931) e Reliquiae (1934) saíram só após o seu falecimento. 
Toda a obra poética de Florbela foi reunida por Guido Battelli num volume chamado Sonetos Completos, publicado pela primeira vez em 1934. Em 1978 tinham saído 23 edições do livro.
 As peças anteriores às primeiras publicações da poetisa foram reconstituídas por Mária Lúcia Dal Farra, que em 1994 editou o texto de 'Trocando Olhares'.


Sonetos completos / Florbela Espanca.
- Coimbra : Livr. Gonçalves, 1934

O LIVRO DE MÁGOAS



O LIVRO DE MÁGOAS, a primeira obra de Florbela Espanca foi editado
 em junho de 1919 por Raul Proença, intelectual e crítico literário
 conceituado e influente, que reconheceu o talento da jovem poetisa
 quando ela lhe enviou um caderno contendo onze poesias de Trocando
 Olhares e apropriadamente chamado Primeiros Passos, em julho de 1916.

 Depois de os poemas serem corrigidos pelo crítico,
 Florbela escreveu-lhe, de novo, acerca das críticas que ele lhe 
 fizera e enviando mais alguns sonetos, que vieram integrar o Livro 
 de Mágoas. Como em toda a sua produção poética publicada em vida,
 os sonetos aparecem alterados, por vezes, drasticamente.

 No Livro de Mágoas, dedicado ao seu pai, o seu melhor amigo, 
 e à alma que considera irmã da sua, o seu irmão, Florbela centrou-se 
 na temática da mágoa, da dor e da saudade, inserindo-se, desde o 
 início da obra, num contexto decadentista e, por vezes, tortuoso.
 À obra, que abre com uma epígrafe a Eugênio de Castro e a Verlaine,
 não falta o tom finissecular, dado pela tendência para chorar e
 lamentar-se que se manifestou ao longo da obra, que incluiu
 sonetos como Vaidade, Neurastenia, Castelã e Em Busca do Amor.

O LIVRO D'Ele



«O Livro D'Ele» é uma compilação de diversas poesias que Florbela 
retirou do caderno «Trocando Olhares» e que pretendia ver publicado
 sob esta designação. Em «O Livro D'Ele», os sonetos alternam com 
as sequências de quadras, embora os primeiros detenham já a 
primazia da obra. Apesar de os versos não trazerem grandes 
novidades, em termos estilísticos em relação ao que já 
anteriormente se conhecia da poetisa, 
o texto apresenta uma assinalável coesão, quer no tocante aos 
motivos, quer no tocante aos temas e à forma: todas as quadras 
são compostas por redondilhas, ao passo que os sonetos surgem 
em versos decassilábicos ou alexandrinos.

No respeitante aos motivos, as flores e a sua imagética perdem
 importância, face à predominância da simbologia cromática.
 Predomina o canto do amor, cruzado, por vezes com o tema da
 mentira, que pode destruir esse amor, como em «Mentiras».
 Referência ainda à influência do gênero epistolar, nas quadras
 de «Carta Para Longe» e à carga fatalista que se manifesta 
também nestes poemas, nomeadamente numa sequência de quadras 
sem título, que começa com o verso «Meu fado, meu doce amigo».


O LIVRO DE SÓROR SAUDADE




Em Abril de 1920, como consequência da sua nova paixão por
 António Guimarães, Florbela regressa à poesia e começa a 
escrever um livro a que pretende chamar «Claustro das Quimeras»,
 escrevendo-o entre Évora, Vila Viçosa e Lisboa, dado o fato de 
ir viver para o Porto e, posteriormente, para Lisboa, por causa
 do seu segundo casamento. A 10 de Março de 1922, opta por 
reorganizá-lo e mudar-lhe o nome para «Livro de Sóror Saudade»,
 que é publicado em Janeiro de 1923, contendo muitas alterações,
 talvez feitas pelo editor, Francisco Lage (amigo de Florbela
 e dramaturgo). A crítica reage positivamente aos novos versos
 da poetisa, com destaque para o «Século da Noite», que 
manifesta grande apreço pela obra recém publicada, bem como 
o público, cuja procura faz o livro esgotar rapidamente.

Dedicando-o inteiramente ao seu novo amor, António Guimarães,
 Florbela expõe no «Livro de Sóror Saudade» o sentimento 
vivo do amor e da paixão, pelo quais se entrega totalmente,
 e que, novamente a fazem despertar para a vida. Opta,
 portanto, por dar menos ênfase à temática da saudade
 antes abordada. Por outro lado, Florbela reforça a
 importância que os motivos ligados ao beijo e à boca
 detém na sua poesia, embora este livro, bem como o 
nome que lhe serve de título, «Sóror Saudade» representem
 uma fuga ao prazer.

Ainda influenciado por uma tendência saudosista, o livro acusa
 igualmente a presença do romantismo de fim de século,
 acompanhado por um crescendo na abordagem erótica, destacando-se 
nele os sonetos «Maria das Quimeras» (de tom biográfico), 
«Hora que Passa», «Princesa Desalento» e, claro, o poema que
 lhe empresta o título, «Sóror Saudade», um epíteto criado 
por Américo Durão.



Dados CITI- Portugal