Seja bem-vindo. Hoje é
Mostrando postagens com marcador Livro de Sóror Saudade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Livro de Sóror Saudade. Mostrar todas as postagens

sábado, 28 de setembro de 2013

EXALTAÇÃO



viver! Beber o vento e o sol! 
Erguer Ao céu os corações a palpitar! 
Deus fez os nossos braços pra prender, 
E a boca fez-se sangue pra beijar! 

A chama, sempre rubra, ao alto a arder! 
Asas sempre perdidas a pairar! 
Mais alto até estrelas desprender! 
A glória! A fama! Orgulho de criar! 

Da vida tenho o mel e tenho os travos 
No lago dos meus olhos de violetas, 
Nos meus beijos estáticos, pagãos! 

Trago na boca o coração dos cravos! 
Boêmios, vagabundos, e poetas, 
Com eu sou vossa Irmã, ó meus Irmãos!

Florbela Espanca
«Livro de Sóror Saudade»
1923








SOL POENTE




Tardinha... "Ave-Maria, Mãe de Deus..." 
E reza a voz dos sinos e das noras... 
O sol que morre tem clarões d'auroras,
Águia que bate as asas pelo céu! 

Horas que têm a cor dos olhos teus... 
Horas evocadoras doutras horas... 
Lembranças de fantásticos outroras, 
De sonhos que não tenho e que eram meus! 

Horas em que as saudades, p'las estradas, 
Inclinam as cabeças mart'rizadas 
E ficam pensativas... meditando... 

Morrem verbenas silenciosamente...
E o rubro sol da tua boca ardente 
Vai-me a pálida boca desfolhando... 


Florbela Espanca
«Livro de Sóror Saudade»
1923

DA MINHA JANELA




Mar alto! Ondas quebradas e vencidas 
Num soluçar aflito, murmurado... 
Vôo de gaivotas, leve, imaculado, 
Como neves nos píncaros nascidas! 

Sol! Ave a tombar, asas já feridas, 
Batendo ainda num arfar pausado...
Ó meu doce poente torturado 
Rezo-te em mim, chorando, mãos erguidas! 

Meu verso de Samain cheio de graça, 
Inda não és clarão já és luar 
Como um branco lilás que se desfaça! 

Amor! Teu coração traga-o no peito... 
Pulsa dentro de mim como este mar 
Num beijo eterno, assim, nunca desfeito!... 

Florbela Espanca
«Livro de Sóror Saudade»
1923

HORA QUE PASSA



Vejo-me triste, abandonada e só 
Bem como um cão sem dono e que o procura 
Mais pobre e desprezada do que Job 
A caminhar na via da amargura! 

Judeu Errante que a ninguém faz dó!
Minh'alma triste, dolorida, escura, 
Minh'alma sem amor é cinza, é pó, 
Vaga roubada ao Mar da Desventura! 

Que tragédia tão funda no meu peito!... 
Quanta ilusão morrendo que esvoaça! 
Quanto sonho a nascer e já desfeito! 

Deus! Como é triste a hora quando morre... 
O instante que foge, voa, e passa... 
Fiozinho d'água triste... a vida corre... 


Florbela Espanca
«Livro de Sóror Saudade»
1923

SOMBRA



De olheiras roxas, roxas, quase pretas, 
De olhos límpidos, doces, languescentes, 
Lagos em calma, pálidos, dormentes 
Onde se debruçassem violetas... 

De mãos esguias, finas hastes quietas, 
Que o vento não baloiça em noites quentes...
Nocturno de Chopin... risos dolentes... 
Versos tristes em sonhos de Poetas...

Beijo doce de aromas perturbantes... 
Rosal bendito que dá rosas... Dantes 
Esta era Eu e Eu era a Idolatrada!... 

Ah, cinzas mortas! Ah, luz que se apaga! 
Vou sendo, em ti, agora, a sombra vaga 
D’alguém que dobra a curva duma estrada... 


Florbela Espanca
«Livro de Sóror Saudade»
1923

PRINCESA DESALENTO



Minh'alma é a Princesa Desalento, 
Como um Poeta lhe chamou, um dia.
É revoltada, trágica, sombria, 
Como galopes infernais de vento! 

É frágil como o sonho dum momento, 
Soturna como preces de agonia, 
Vive do riso duma boca fria! 
Minh'alma é a Princesa Desalento... 

Altas horas da noite ela vagueia... 
E ao luar suavíssimo, que anseia, 
Põe-se a falar de tanta coisa morta! 

O luar ouve a minh'alma, ajoelhado, 
E vai traçar, fantástico e gelado, 
A sombra duma cruz à tua porta... 


Florbela Espanca
«Livro de Sóror Saudade»
1923



SUAVIDADE



Poisa a tua cabeça dolorida 
Tão cheia de quimeras, de ideal 
Sobre o regaço brando e maternal 
Da tua doce Irmã compadecida. 

Hás de contar-me nessa voz tão q'rida 
Tua dor infantil e irreal, 
E eu, pra te consolar, direi o mal 
Que à minha alma profunda fez a Vida. 

E hás de adormecer nos meus joelhos... 
E os meus dedos enrugados, velhos,
Hão de fazer-se leves e suaves...

Hão de poisar-se num fervor de crente, 
Rosas brancas tombando docemente 
Sobre o teu rosto, como penas d'aves... 


Florbela Espanca
«Livro de Sóror Saudade»
1923


HORAS RUBRAS



Horas profundas, lentas e caladas 
Feitas de beijos rubros e ardentes, 
De noites de volúpia, noites quentes 
Onde há risos de virgens desmaiadas... 

Oiço olaias em flor às gargalhadas... 
Tombam astros em fogo, astros dementes, 
E do luar os beijos languescentes 
São pedaços de prata p'las estradas..

Os meus lábios são brancos como lagos... 
Os meus braços são leves como afagos, 
Vestiu-os o luar de sedas puras... 

Sou chama e neve e branca e mist'riosa... 
E sou, talvez, na noite voluptuosa,
Ó meu Poeta, o beijo que procuras! 


Florbela Espanca
«Livro de Sóror Saudade»
1923



A VIDA




É vão o amor, o ódio, ou o desdém; 
Inútil o desejo e o sentimento... 
Lançar um grande amor aos pés d'alguém 
O mesmo é que lançar flores ao vento! 

Todos somos no mundo "Pedro Sem", 
Uma alegria é feita dum tormento, 
Um riso é sempre o eco dum lamento, 
Sabe-se lá um beijo donde vem! 

A mais nobre ilusão morre... desfaz-se... 
Uma saudade morta em nós renasce 
Que no mesmo momento é já perdida... 

Amar-te a vida inteira eu não podia... 
A gente esquece sempre o bem dum dia. 
Que queres, ó meu Amor, se é isto a Vida!... 


Florbela Espanca
«Livro de Sóror Saudade»
1923

RENÚNCIA



A minha mocidade há muito pus 
No tranqüilo convento da tristeza; 
Lá passa dias, noites, sempre presa, 
Olhos fechados, magras mãos em cruz... 

Lá fora, a Noite, Satanás, seduz! 
Desdobra-se em requintes de Beleza... 
E como um beijo ardente a Natureza... 
A minha cela é como um rio de luz... 

Fecha os teus olhos bem! Não vejas nada! 
Empalidece mais! E, resignada, 
Prende os teus braços a uma cruz maior! 

Gela ainda a mortalha que te encerra! 
Enche a boca de cinzas e de terra 
Ó minha mocidade toda em flor! 


Florbela Espanca
«Livro de Sóror Saudade»
1923

ÓDIO?



A Aurora Aboim 


Ódio por Ele? Não... Se o amei tanto, 
Se tanto bem lhe quis no meu passado, 
Se o encontrei depois de o ter sonhado, 
Se à vida assim roubei todo o encanto, 

Que importa se mentiu? E se hoje o pranto 
Turva o meu triste olhar, marmorizado, 
Olhar de monja, trágico, gelado 
Com um soturno e enorme Campo Santo! 

Nunca mais o amar já é bastante! 
Quero senti-lo doutra, bem distante, 
Como se fora meu, calma e serena! 

Ódio seria em mim saudade infinda, 
Mágoa de o ter perdido, amor ainda!
Ódio por Ele? Não... não vale a pena... 


Florbela Espanca
«Livro de Sóror Saudade»
1923


CREPÚSCULO



Teus olhos, borboletas de oiro, ardentes 
Batendo as asas leves, irisadas, 
Poisam nos meus, suaves e cansadas 
Como em dois lírios roxos e dolentes... 

E os lírios fecham... Meu Amor, não sentes? 
Minha boca tem rosas desmaiadas, 
E as minhas pobres mãos são maceradas 
Como vagas saudades de doentes... 

O Silencio abre as mãos... entorna rosas... 
Andam no ar carícias vaporosas 
Como pálidas sedas, arrastando... 

E a tua boca rubra ao pé da minha
É na suavidade da tardinha 
Um coração ardente palpitando... 


Florbela Espanca
«Livro de Sóror Saudade»
1923

RUÍNAS



Se é sempre Outono o rir das Primaveras, 
Castelos, um a um, deixa-os cair... 
Que a vida é um constante derruir 
De palácios do Reino das Quimeras! 

E deixa sobre as ruínas crescer heras, 
Deixa-as beijar as pedras e florir! 
Que a vida é um contínuo destruir 
De palácios do Reino das Quimeras! 

Deixa tombar meus rútilos castelos! 
Tenho ainda mais sonhos para erguê-los 
Mais alto do que as águias pelo ar! 

Sonhos que tombam! Derrocada louca! 
São como os beijos duma linda boca! 
Sonhos!... Deixa-os tombar... Deixa-os tombar. 


Florbela Espanca
«Livro de Sóror Saudade»
1923


SAUDADES



Saudades! Sim.. talvez.. e por que não?... 
Se o sonho foi tão alto e forte 
Que pensara vê-lo até à morte 
Deslumbrar-me de luz o coração! 

Esquecer! Para quê?... Ah, como é vão! 
Que tudo isso, Amor, nos não importe. 
Se ele deixou beleza que conforte 
Deve-nos ser sagrado como o pão. 

Quantas vezes, Amor, já te esqueci, 
Para mais doidamente me lembrar 
Mais decididamente me lembrar de ti! 

E quem dera que fosse sempre assim: 
Quanto menos quisesse recordar 
Mais saudade andasse presa a mim! 


Florbela Espanca
«Livro de Sóror Saudade»
1923


MARIA DAS QUIMERAS



Maria das Quimeras me chamou Alguém.. 
Pelos castelos que eu ergui 
P'las flores d'oiro e azul que a sol teci 
Numa tela de sonho que estalou. 

Maria das Quimeras me ficou; 
Com elas na minh'alma adormeci. 
Mas, quando despertei, nem uma vi 
Que da minh'alma, Alguém, tudo levou! 

Maria das Quimeras, que fim deste
Às flores d'oiro e azul que a sol bordaste, 
Aos sonhos tresloucados que fizeste? 

Pelo mundo, na vida, o que é que esperas?... 
Aonde estão os beijos que sonhaste, 
Maria das Quimeras, sem quimeras?... 


Florbela Espanca
«Livro de Sóror Saudade»
1923


CINZENTO



Poeiras de crepúsculos cinzentos, 
Lindas rendas velhinhas, em pedaços,
Prendem-se aos meus cabelos, aos meus braços 
Como brancos fantasmas, sonolentos... 

Monges soturnos deslizando lentos, 
Devagarinho, em mist'riosos passos... 
Perde-se a luz em lânguidos cansaços... 
Ergue-se a minha cruz dos desalentos! 

Poeiras de crepúsculos tristonhos, 
Lembram-me o fumo leve dos meus sonhos, 
A névoa das saudades que deixaste! 

Hora em que o teu olhar me deslumbrou... 
Hora em que a tua boca me beijou... 
Hora em que fumo e névoa te tornaste... 


Florbela Espanca
«Livro de Sóror Saudade»
1923

NOTURNO



Amor! Anda o luar todo bondade, 
Beijando a terra, a desfazer-se em luz... 
Amor! São os pés brancos de Jesus 
Que andam pisando as ruas da cidade! 

E eu ponho-me a pensar... Quanta saudade 
Das ilusões e risos que em ti pus! 
Traçaste em mim os braços duma cruz, 
Neles pregaste a minha mocidade! 

Minh'alma, que eu te dei, cheia de mágoas, 
E nesta noite o nenúfar dum lago 
'Stendendo as asas brancas sobre as águas! 

Poisa as mãos nos meus olhos com carinho, 
Fecha-os num beijo dolorido e vago... 
E deixa-me chorar devagarinho... 


Florbela Espanca
«Livro de Sóror Saudade»
1923



TARDE DEMAIS...



Quando chegaste enfim, para te ver 
Abriu-se a noite em mágico luar; 
E pra o som de teus passos conhecer 
Pôs-se o silêncio, em volta, a escutar... 

Chegaste enfim! Milagre de endoidar! 
Viu-se nessa hora o que não pode ser: 
Em plena noite, a noite iluminar; 
E as pedras do caminho florescer! 

Beijando a areia d'oiro dos desertos 
Procura-te em vão! Braços abertos, 
Pés nus, olhos a rir, a boca em flor! 

E há cem anos que eu fui nova e linda!... 
E a minha boca morta grita ainda:
"Por que chegaste tarde, Ó meu Amor?!..." 


Florbela Espanca
«Livro de Sóror Saudade»
1923

ESFINGE




Sou filha da charneca erma e selvagem.
Os giestais, por entre os rosmaninhos, 
Abrindo os olhos d'oiro, p'los caminhos, 
Desta minh'alma ardente são a imagem. 

Embalo em mim um sonho vão, miragem: 
Que tu e eu, em beijos e carinhos, 
Eu a Charneca e tu o Sol, sozinhos, 
Fôssemos um pedaço de paisagem! 

E à noite, à hora doce da ansiedade 
Ouviria da boca do luar O 
De Profundis triste da saudade... 

E à tua espera, enquanto o mundo dorme, 
Ficaria, olhos quietos, a cismar... 
Esfinge olhando a planície enorme... 


Florbela Espanca
«Livro de Sóror Saudade»
1923

ANOITECER



A luz desmaia num fulgor d'aurora, 
Diz-nos adeus religiosamente... 
E eu, que não creio em nada, sou mais crente 
Do que em menina, um dia, o fui... outrora...

Não sei o que em mim ri, o que em mim chora 
Tenho bênçãos d'amor pra toda a gente! 
Como eu sou pequenina e tão dolente 
No amargo infinito desta hora! 

Horas tristes que são o meu rosário...
Ó minha cruz de tão pesado lenho!
Meu áspero e intérmino Calvário! 

E a esta hora tudo em mim revive: 
Saudades de saudades que não tenho... 
Sonhos que são os sonhos dos que eu tive... 


Florbela Espanca
«Livro de Sóror Saudade»
1923