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segunda-feira, 30 de setembro de 2013

POEMAS DO LIVRO"RELIQUIAE"



POBREZINHA

Nas nossas duas sinas tão contrárias 
Um pelo outro somos ignorados:
Sou filha de regiões imaginárias, 
Tu pisas mundos firmes já pisados.

Trago no olhar visões extraordinárias 
De coisas que abracei de olhos fechados... 
Em mim não trago nada, como os párias... 
Só tenho os astros, como os deserdados...

E das tuas riquezas e de ti 
Nada me deste e eu nada recebi, 
Nem o beijo que passa e que consola.

E o meu corpo, minh'alma e coração 
Tudo em risos poisei na tua mão!... 
...Ah, como é bom um pobre dar esmola!...

Florbela Espanca
In ‘Reliquiae’


ROSEIRA BRAVA

Há nos teus olhos de oiro um tal fulgor 
E no teu riso tanta claridade, 
Que o lembrar-me de ti é ter saudade
Duma roseira brava toda em flor.

Tuas mãos foram feitas para a dor,
Para os gestos de doçura e piedade;
E os teus beijos de sonho e de ansiedade 
São como a alma a arder do próprio amor! 

Nasci envolta em trajes de mendiga; 
E, ao dares-me o teu amor de maravilha,
Deste-me o manto de oiro de rainha!

Tua irmã... teu amor... e tua amiga... 
E também - toda em flor - a tua filha, 
Minha roseira brava que é só minha!...

Florbela Espanca
In ‘Reliquiae’


NAVIOS-FANTASMAS

O arabesco fantástico do fumo 
Do meu cigarro traça o que disseste, 
A azul, no ar; e o que me escreveste, 
E tudo o que sonhaste e eu presumo.

Para a minha alma estática e sem rumo,
A lembrança de tudo o que me deste
Passa como o navio que perdeste, 
No arabesco fantástico do fumo...

Lá vão! Lá vão! Sem velas e sem mastros, 
Têm o brilho rutilante de astros,
Navios-fantasmas, perdem-se a distância!

Vão-me buscar, sem mastros e sem velas, 
Noiva-menina, as doidas caravelas, 
Ao ignoto País da minha infância...

Florbela Espanca
In ‘Reliquiae’


O MEU SONETO

Em atitudes e em ritmos fleumáticos, 
Erguendo as mãos em gestos recolhidos, 
Todos os brocados fúlgidos, hieráticos, 
Em ti andam bailando os meus sentidos...

E os meus olhos serenos, enigmáticos,
Meninos que na estrada andam perdidos, 
Dolorosos, tristíssimos, extáticos, 
São letras de poemas nunca lidos...

As magnólias abertas dos meus dedos 
São mistérios, são filtros, são enredos 
Que pecados d’amor trazem de rastos... 

E a minha boca, a rútila manhã, 
Na Via Láctea, lírica, pagã, 
A rir desfolha as pétalas dos astros!...

Florbela Espanca
In ‘Reliquiae’


NIHIL NOVUM

Na penumbra do pórtico encantado 
De Bruges, noutras eras, já vivi; 
Vi os templos do Egito com Loti;
Lancei flores, na Índia, ao rio sagrado.

No horizonte de bruma opalizado, 
Frente ao Bósforo errei, pensando em ti! 
O silêncio dos claustros conheci 
Pelos poentes de nácar e brocado...

Mordi as rosas brancas de Ispahan 
E o gosto a cinza em todas era igual!
Sempre a charneca bárbara e deserta,

Triste, a florir numa ansiedade vã! 
Sempre da vida - o mesmo estranho mal, 
E o coração - a mesma chaga aberta!

Florbela Espanca
In ‘Reliquiae’

ÉVORA

Évora! Ruas ermas sob os céus
Cor de violetas roxas... Ruas frades 
Pedindo em triste penitência a Deus
Que nos perdoe as míseras vaidades!

Tenho corrido em vão tantas cidades!
E só aqui recordo os beijos teus, 
E só aqui eu sinto que são meus 
Os sonhos que sonhei noutras idades!

Évora!... O teu olhar... o teu perfil... 
Tua boca sinuosa, um mês de Abril 
Que o coração no peito me alvoroça!

...Em cada viela o vulto dum fantasma... 
E a minha alma soturna escuta e pasma...
E sente-se passar menina- e- moça ... 

Florbela Espanca
In ‘Reliquiae’


À JANELA DE GARCIA DE REZENDE

Janela antiga sobre a rua plana... 
Ilumina-a o luar com o seu clarão... 
Dantes, a descansar de luta insana, 
Fui, talvez, flor no poético balcão...

Dantes! Da minha glória altiva e ufana, 
Talvez... Quem sabe?... Tonto de ilusão,
Meu rude coração de alentejana
Me palpitasse ao luar nesse balcão...

Mística dona, em outras Primaveras, 
Em refulgentes horas de outras eras, 
Vi passar o cortejo ao sol doirado...

Bandeiras! Pajens! O pendão real! 
E na tua mão, vermelha, triunfal,
Minha divisa: um coração chagado!...

Florbela Espanca
In ‘Reliquiae’


O MEU IMPOSSÍVEL

Minh’alma ardente é uma fogueira acesa,
É um brasido enorme a crepitar! 
Ânsia de procurar sem encontrar 
A chama onde queimar uma incerteza!

Tudo é vago e incompleto! E o que mais pesa 
É nada ser perfeito! É deslumbrar 
A noite tormentosa até cegar
E tudo ser em vão! Deus, que tristeza!...

Aos meus irmãos na dor já disse tudo 
E não me compreenderam!... Vão e mudo 
Foi tudo o que entendi e o que pressinto...

Mas se eu pudesse, a mágoa que em mim chora. 
Contar, não a chorava como agora, 
Irmãos, não a sentia como a sinto!...

Florbela Espanca
In ‘Reliquiae’

EM VÃO 

Passo triste na vida e triste sou 
Um pobre a quem jamais quiseram bem!
Um caminhante exausto que passou, 
Que não diz onde vai nem donde vem.

Ah! Sem piedade, a rir, tanto desdém 
A flor da minha boca desdenhou! 
Solitário convento onde ninguém 
A silenciosa cela procurou!

E eu quero bem a tudo, a toda a gente!... 
Ando a amar assim, perdidamente,
A acalentar o mundo nos meus braços!

E tem passado, em vão, a mocidade 
Sem que no meu caminho uma saudade 
Abra em flores a sombra dos meus passos!

Florbela Espanca
In ‘Reliquiae’


VOZ QUE SE CALA

Amo as pedras, os astros e o luar 
Que beija as ervas do atalho escuro, 
Amo as águas de anil e o doce olhar
Dos animais, divinamente puro.

Amo a hera que entende a voz do muro, 
E dos sapos, o brando tilintar 
De cristais que se afagam devagar,
E da minha charneca o rosto duro.

Amo todos os sonhos que se calam 
De corações que sentem e não falam,
Tudo o que é Infinito e pequenino!

Asa que nos protege a todos nós!
Soluço imenso, eterno, que é a voz 
Do nosso grande e mísero Destino!...

Florbela Espanca
In ‘Reliquiae’


PARA QUÊ?
Ao velho amigo João 

Para que ser o musgo do rochedo 
Ou urze atormentada da montanha? 
Se a arranca a ansiedade e o medo 
E este enleio e esta angústia estranha

E todo este feitiço e este enredo 
Do nosso próprio peito? E é tamanha 
E tão profunda a gente que o segredo
Da vida como um grande mar nos banha?

Pra que ser asa quando a gente voa 
De que serve ser cântico se entoa 
Toda a canção de amor do Universo?

Para que ser altura e ansiedade, 
Se se pode gritar uma Verdade 
Ao mundo vão nas sílabas dum verso?

Florbela Espanca
In ‘Reliquiae’


SONHO VAGO

Um sonho alado que nasceu num instante, 
Erguido ao alto em horas de demência... 
Gotas de água que tombam em cadência 
Na minh’alma tristíssima, distante...

Onde está ele o Desejado? O Infante? 
O que há de vir e amar-me em doida ardência?
O das horas de mágoa e penitência? 
O Príncipe Encantado? O Eleito? O Amante?

E neste sonho eu já nem sei quem sou...
O brando marulhar dum longo beijo 
Que não chegou a dar-se e que passou...

Um fogo-fátuo rútilo, talvez... 
E eu ando a procurar-te e já te vejo!...
E tu já me encontraste e não me vês!...

Florbela Espanca
In ‘Reliquiae’


BLASFÊMIA

Cala-te... Escuta... Não me digas nada... 
Cai a noite nos longes donde vim... 
Toda eu sou alma e amor! Sou um jardim! 
Um pátio alucinante de Granada!

Dos meus cílios, a sombra enluarada, 
Quando os teus olhos descem sobre mim, 
Traça trêmulas hastes de jasmim 
Na palidez da face extasiada!

Sou no teu rosto a luz que o alumia... 
Sou a expressão das tuas mãos de raça... 
E os beijos que me dás já foram meus...

Em ti sou glória, altura e poesia! 
E vejo-me (Oh, milagre cheio de graça!) 
Dentro de ti, em ti, igual a Deus!...

Florbela Espanca
In ‘Reliquiae’


Passam no teu olhar…

Passam no teu olhar nobres cortejos, 
Frotas, pendões ao vento sobranceiros. 
Lindos versos de antigos romanceiros, 
Céus do Oriente, em brasa, como beijos,

Mares onde não cabem teus desejos; 
Passam no teu olhar mundos inteiros, 
Todo um povo de heróis e marinheiros, 
Lanças nuas em rútilos lampejos; 

Passam lendas e sonhos e milagres! 
Passa a Índia, a visão do Infante em Sagres, 
Em centelhas de crença e de certeza!

E ao sentir-te tão grande, ao ver-te assim, 
Amor, julgo trazer dentro de mim 
Um pedaço da terra portuguesa!

Florbela Espanca
In ‘Reliquiae’


NOITE DE CHUVA

Chuva... Que gotas grossas!... Vem ouvir: 
Uma... duas... mais outra que desceu...
É Viviana, é Melusina a rir, 
São rosas brancas dum rosal do céu...

Os lilases deixaram-se dormir... 
Nem um frêmito... a terra emudeceu... 
Amor! Vem ver estrelas a cair:
Uma... duas... mais outra que desceu...

Fala baixo, juntinho ao meu ouvido, 
Que essa fala de amor seja um gemido, 
Um murmúrio, um soluço, um ai desfeito...

Ah, deixa à noite o seu encanto triste!
E a mim... o teu amor que mal existe, 
Chuva a cair na noite do meu peito!

Florbela Espanca
In ‘Reliquiae’


TARDE DE MÚSICA

Só Schumann, meu Amor! Serenidade... 
Não assustes os sonhos... Ah!, não varras 
As quimeras... Amor, senão esbarras 
Na minha vaga imaterialidade...

Liszt, agora, o brilhante; o piano arde... 
Beijos alados... ecos de fanfarras... 
Pétalas dos teus dedos feito garras... 
Como cai em pó de oiro o ar da tarde!

Eu olhava para ti... “É lindo! Ideal!” 
Gemeram nossas vozes confundidas.
- Havia rosas cor-de-rosa aos molhos – 

Falavas de Liszt e eu... da musical 
Harmonia das pálpebras descidas, 
Do ritmo dos teus cílios sobre os olhos...

Florbela Espanca
In ‘Reliquiae’


CHOPIN

Não se acende hoje a luz... Todo o luar 
Fique lá fora. Bem aparecidas 
As estrelas miudinhas, dando no ar 
As voltas dum cordão de margaridas!

Entram falenas meio entontecidas... 
Lusco-fusco... Um morcego, a palpitar, 
Passa... torna a passar... torna a passar... 
As coisas têm o ar de adormecidas...

Mansinho... Roça os dedos p’lo teclado,
No vago arfar que tudo alteia e doira, 
Alma, Sacrário de Almas, meu Amado!

E, enquanto o piano a doce queixa exala,
Divina e triste, a grande sombra loira, 
Vem para mim da escuridão da sala...

Florbela Espanca
In ‘Reliquiae’


O MEU DESEJO

Vejo-te só a ti no azul dos céus, 
Olhando a nuvem de oiro que flutua... 
Ó minha perfeição que criou Deus 
E que num dia lindo me fez sua!

Nos altos que diviso pela rua,
Que cruzam os seus passos com os meus... 
Minha boca tem fome só da tua! 
Meus olhos têm sede só dos teus!

Sombra da tua sombra, doce e calma, 
Sou a grande quimera da tua alma 
E, sem viver, ando a viver contigo...

Deixa-me andar assim no teu caminho 
Por toda a vida, Amor, devagarinho, 
Até a morte me levar consigo... 

Florbela Espanca
In ‘Reliquiae’


ESCRAVA

Ó meu Deus, ó meu dono, ó meu senhor, 
Eu te saúdo, olhar do meu olhar, 
Fala da minha boca a palpitar, 
Gesto das minhas mãos tontas de amor!

Que te seja propício o astro e a flor, 
Que a teus pés se incline a terra e o mar, 
P’los séculos dos séculos sem par, 
Ó meu Deus, ó meu dono, ó meu senhor!

Eu, doce e humilde escrava, te saúdo, 
E, de mãos postas, em sentida prece, 
Canto teus olhos de oiro e de veludo.

Ah, esse verso imenso de ansiedade, 
Esse verso de amor que te fizesse 
Ser eterno por toda a Eternidade!...

Florbela Espanca
In ‘Reliquiae’


DIVINO INSTANTE

Ser uma pobre morta inerte e fria, 
Hierática, deitada sob a terra, 
Sem saber se no mundo há paz ou guerra, 
Sem ver nascer, sem ver morrer o dia,

Luz apagada ao alto e que alumia, 
Boca fechada à fala que não erra, 
Urna de bronze que a Verdade encerra, 
Ah! ser Eu essa morta inerte e fria!

Ah, fixar o efêmero! Esse instante 
Em que o teu beijo sôfrego de amante 
Queima o meu corpo frágil de âmbar loiro;

Ah, fixar o momento em que, dolente,
Tuas pálpebras descem, lentamente, 
Sobre a vertigem dos teus olhos de oiro!

Florbela Espanca
In ‘Reliquiae’


SILÊNCIO!... 

No fadário que é meu, neste penar, 
Noite alta, noite escura, noite morta, 
Sou o vento que geme e quer entrar, 
Sou o vento que vai bater-te à porta...

Vivo longe de ti, mas que me importa? 
Se eu já não vivo em mim! Ando a vaguear 
Em roda à tua casa, a procurar 
Beber-te a voz, apaixonada, absorta!

Estou junto de ti e não me vês... 
Quantas vezes no livro que tu lês
Meu olhar se poisou e se perdeu!

Trago-te como um filho nos meus braços! 
E na tua casa... Escuta!... Uns leves passos...
Silêncio, meu Amor!... Abre! Sou eu!...

Florbela Espanca
In ‘Reliquiae’


O MAIOR BEM

Este querer-te bem sem me quereres, 
Este sofrer por ti constantemente 
Andar atrás de ti sem tu me veres 
Faria piedade a toda a gente.

Mesmo a beijar-me a tua boca mente...
Quantos sangrentos beijos de mulheres 
Poisa na minha a tua boca ardente, 
E quanto engano nos seus vãos dizeres!...

Mas que me importa a mim que me não queiras.
Se esta pena, esta dor, estas canseiras,
Este mísero pungir, árduo e profundo

Do teu frio desamor, dos teus desdéns, 
E, na vida, o mais alto dos meus bens? 
É tudo quanto eu tenho neste mundo?

Florbela Espanca
In ‘Reliquiae’


PRIMAVERA

É Primavera agora, meu Amor! 
O campo despe a veste de estamenha; 
Não há árvore nenhuma que não tenha
O coração aberto, todo em flor! 

Ah! Deixa-te vogar, calmo, ao sabor 
Da vida... não há bem que nos não venha 
Dum mal que o nosso orgulho em vão desdenha! 
Não há bem que não possa ser melhor!

Também despi meu triste burel pardo, 
E agora cheiro a rosmaninho e a nardo 
E ando agora tonta, à tua espera...

Pus rosas cor-de-rosa em meus cabelos... 
Parecem um rosal! Vem desprendê-los!
Meu Amor, meu Amor, é Primavera!...


Florbela Espanca
In ‘Reliquiae’


OS MEUS VERSOS

Rasga esses versos que eu te fiz, Amor! 
Deita-os ao nada, ao pó ao esquecimento, 
Que a cinza os cubra, que os arraste o vento, 
Que a tempestade os leve aonde for! 

Rasga-os na mente, se os souberes de cor, 
Que volte ao nada o nada dum momento. 
Julguei-me grande pelo sentimento, 
E pelo orgulho ainda sou maior!...

Tanto verso já disse o que eu sonhei! 
Tantos penaram já o que eu penei!
Asas que passam, todo o mundo as sente...

Rasga os meus versos... Pobre endoidecida! 
Como se um grande amor cá nesta vida 
Não fosse o mesmo amor de toda a gente!...

Florbela Espanca
In ‘Reliquiae’


AMOR QUE MORRE

O nosso amor morreu... Quem o diria! 
Quem o pensara mesmo ao ver-me tonta. 
Ceguinha de te ver, sem ver a conta 
Do tempo que passava, que fugia!

Bem estava a sentir que ele morria... 
E outro clarão, ao longe, já desponta! 
Um engano que morre... e logo aponta 
A luz doutra miragem fugidia...

Eu bem sei, meu Amor, que pra viver
São precisos amores, pra morrer 
E são precisos sonhos pra partir.

Eu bem sei, meu Amor, que era preciso
Fazer do amor que parte o claro riso
Doutro amor impossível que há de vir!

Florbela Espanca
In ‘Reliquiae’


[sem título]

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Eu não sou de ninguém!... Quem me quiser
Há-de ser luz do Sol em tardes quentes;
Nos olhos de água clara há-de trazer
As fúlgidas pupilas dos videntes!

Há-de ser seiva no botão repleto,
Voz no murmúrio do pequeno insecto,
Vento que enfurna as velas sobre os mastros!...

Há-de ser Outro e Outro num momento!
Força viva, brutal, em movimento,
Astro arrastando catadupas de astros!

Florbela Espanca
In ‘Reliquiae’


SOBRE A NEVE

Sobre mim, teu desdém, pesado jaz 
Como um manto de neve... Quem dissera
Porque tombou em plena Primavera
Toda essa neve que o Inverno traz!

Coroavas-me inda há pouco de lilás 
E de rosas silvestres... quando eu era 
Aquela que o Destino prometera 
Aos teus rútilos sonhos de rapaz!

Dos beijos que me deste não te importas, 
Asas paradas de andorinhas mortas... 
Folhas de Outono em correria louca...

Mas inda um dia, em mim, ébrio de cor,
Há de nascer um roseiral em flor 
Ao sol de Primavera doutra boca!

Florbela Espanca
In ‘Reliquiae’


VÃO ORGULHO

Neste mundo vaidoso o amor é nada,
É um orgulho a mais, outra vaidade, 
A coroa de loiros desfolhada
Com que se espera a Imortalidade.

Ser Beatriz! Natércia! Irrealidade... 
Mentira... Engano de alma desvairada... 
Onde está desses braços a verdade, 
Essa fogueira em cinzas apagada?...

Mentira! Não te quis... não me quiseste... 
Eflúvios subtis dum bem celeste? 
Gestos... palavras sem nenhum condão... 

Mentira! Não fui tua... não! Somente... 
Quis ser mais do que sou, mais do que gente,
No alto orgulho de o ter sido em vão!...

Florbela Espanca
In ‘Reliquiae’


ÚLTIMO SONHO DE "SÓROR SAUDADE"

Àquele que se perdera no caminho...


Sóror Saudade abriu a sua cela...
E, num encanto que ninguém traduz, 
Despiu o manto negro que era dela, 
Seu vestido de noiva de Jesus.

E a noite escura, extasiada ao vê-la, 
As brancas mãos no peito quase em cruz, 
Teve um brilhar feérico de estrela 
Que se esfolhasse em pétalas de luz!

Sóror Saudade olhou... Que olhar profundo 
Que sonha e espera?... Ah! como é feio o mundo. 
E os homens vãos! - Então, devagarinho,

Sóror Saudade entrou no seu convento... 
E, até morrer, rezou, sem um lamento, 
Por Um que se perdera no caminho!...

Florbela Espanca
In ‘Reliquiae’


ESQUECIMENTO

Esse de quem eu era e que era meu, 
Que foi um sonho e foi realidade,
Que me vestiu a alma de saudade, 
Para sempre de mim desapar’ceu.

Tudo em redor então escureceu, 
E foi longínqua toda a claridade! 
Ceguei... tateio sombras... Que ansiedade! 
Apalpo cinzas porque tudo ardeu!

Descem em mim poentes de Novembro...
A sombra dos meus olhos, a escurecer... 
Veste de roxo e negro os crisântemos... 

E desse que era meu já me não lembro... 
Ah, a doce agonia de esquecer 
A lembrar doidamente o que esquecemos!...

Florbela Espanca
In ‘Reliquiae’


LOUCURA

Tudo cai! Tudo tomba! Derrocada 
Pavorosa! Não sei onde era dantes.
Meu solar, meus palácios meus mirantes! 
Não sei de nada, Deus, não sei de nada!...

Passa em tropel febril a cavalgada 
Das paixões e loucuras triunfantes!
Rasgam-se as sedas, quebram-se os diamantes!
Não tenho nada, Deus, não tenho nada!...

Pesadelos de insônia, ébrios de anseio!
Loucura a esboçar-se, a enegrecer
Cada vez mais as trevas do meu seio!

Ó pavoroso mal de ser sozinha!
Ó pavoroso e atroz mal de trazer 
Tantas almas a rir dentro da minha!

Florbela Espanca
In ‘Reliquiae’


DEIXAI ENTRAR A MORTE

Deixai entrar a Morte, a Iluminada, 
A que vem para mim, pra me levar. 
Abri todas as portas par em par
Com asas a bater em revoada.

Que sou eu neste mundo? A deserdada, 
A que prendeu nas mãos todo o luar,
A vida inteira, o sonho, a terra, o mar 
E que, ao abri-las, não encontrou nada!

Ó Mãe! Ó minha Mãe, pra que nasceste? 
Entre agonias e em dores tamanhas
Pra que foi, dize lá, que me trouxeste

Dentro de ti? Pra que eu tivesse sido
Somente o fruto amargo das entranhas 
Dum lírio que em má hora foi nascido!... 

Florbela Espanca
In ‘Reliquiae’


À MORTE

Morte, minha Senhora Dona Morte, 
Tão bom que deve ser o teu abraço!
Lânguido e doce como um doce laço 
E como uma raiz, sereno e forte.

Não há mal que não sare ou não conforte 
Tua mão que nos guia passo a passo,
Em ti, dentro de ti, no teu regaço
Não há triste destino nem má sorte.

Dona Morte dos dedos de veludo, 
Fecha-me os olhos que já viram tudo!
Prende-me as asas que voaram tanto!

Vim da Moirama, sou filha de rei,
Má fada me encantou e aqui fiquei 
À tua espera,... quebra-me o encanto!

Florbela Espanca
In ‘Reliquiae’















POEMAS DO LIVRO "CHARNECA E FLOR"


CHARNECA EM FLOR


Enche o meu peito, num encanto mago,
O frêmito das coisas dolorosas...
Sob as urzes queimadas nascem rosas...
Nos meus olhos as lágrimas apago...

Anseio! Asas abertas! O que trago
Em mim? Eu oiço bocas silenciosas
Murmurar-me as palavras misteriosas
Que perturbam meu ser como um afago!

E nesta febre ansiosa que me invade, 
Dispo a minha mortalha, o meu burel,
E, já não sou, Amor, Sóror Saudade...

Olhos a arder em êxtases de amor, 
Boca a saber a sol, a fruto, a mel:
Sou a charneca rude a abrir em flor!

Florbela Espanca
In ‘Charneca Em Flor’ 1931


Crucificada

Amiga… noiva… irmã… o que quiseres!
Por ti, todos os céus terão estrelas,
Por teu amor, mendiga, hei de merecê-las,
Ao beijar a esmola que me deres.

Podes amar até outras mulheres!
- Hei de compor, sonhar palavras belas,
Lindos versos de dor só para elas,
Para em lânguidas noites lhes dizeres!

Crucificada em mim, sobre os meus braços,
Hei de pousar a boca nos teus passos
Pra não serem pisados por ninguém.

E depois… Ah, depois de dores tamanhas,
Nascerás outra vez de outras entranhas,
Nascerás outra vez de uma outra mãe!

Florbela Espanca
In ‘Charneca Em Flor’ 1931



Quem Sabe?!…


Eu sigo-te e tu foges. É este o meu destino:
Beber o fel amargo em luminosa taça,
Chorar amargamente um beijo teu, divino,
E rir olhando o vulto altivo da desgraça!

Tu foges-me, e eu sigo o teu olhar bendito;
Por mais que fujas sempre, um sonho há de alcançar-te
Se um sonho pode andar por todo o infinito,
De que serve fugir se um sonho há de encontrar-te?!

Demais, nem eu talvez, perceba se o amor
É este perseguir de raiva, de furor,
Com que eu te sigo assim como os rafeiros leais.

Ou se é então a fuga eterna, misteriosa,
Com que me foges sempre, ó noite tenebrosa!
Por me fugires, sim, talvez me queiras mais!

Florbela Espanca
In ‘Charneca Em Flor’ 1931


Árvores do Alentejo

Horas mortas… Curvada aos pés do monte
A planície é um brasido… e, torturadas,
As árvores sangrentas, revoltadas,
Gritam a Deus a bênção duma fonte!

E quando, manhã alta, o sol posponte
A ouro a giesta, a arder, pelas estradas,
Esfíngicas, recortam desgrenhadas
Os trágicos perfis no horizonte!

Árvores! Corações, almas que choram,
Almas iguais à minha, almas que imploram
Em vão remédio para tanta mágoa!

Árvores! Não choreis! Olhai e vede:
- Também ando a gritar, morta de sede,
Pedindo a Deus a minha gota d´água! 

Florbela Espanca
In ‘Charneca Em Flor’ 1931


Espera…

Não me digas adeus, ó sombra amiga,
Abranda mais o ritmo dos teus passos;
Sente o perfume da paixão antiga,
Dos nossos bons e cândidos abraços!

Sou dona de místicos cansaços,
A fantástica e estranha rapariga
Que um dia ficou presa nos teus braços…
Não vás ainda embora, ó sombra amiga!

Teu amor fez de mim um lago triste:
Quantas ondas a rir que não lhe ouviste,
Quanta canção de ondinas lá no fundo!

Espera…espera…ó minha sombra amada…
Vê que pra além de mim já não há nada
E nunca mais me encontrarás neste mundo!

Florbela Espanca
In ‘Charneca Em Flor’ 1931



VERSOS DE ORGULHO

O mundo quer-me mal porque ninguém
Tem asas como eu tenho! Porque Deus
Me fez nascer Princesa entre plebeus
Numa torre de orgulho e de desdém!

Porque o meu Reino fica para Além!
Porque trago no olhar os vastos céus,
E os oiros e os clarões são todos meus!
Porque Eu sou Eu e porque Eu sou Alguém!

O mundo! O que é o mundo, ó meu amor?!
O jardim dos meus versos todo em flor,
A seara dos teus beijos, pão bendito,

Meus êxtases, meus sonhos, meus cansaços...
São os teus braços dentro dos meus braços:
Via Láctea fechando o Infinito!...


Florbela Espanca
In ‘Charneca Em Flor’ 1931



REALIDADE

Em ti o meu olhar fez-se alvorada,
E a minha voz fez-se gorjeio de ninho,
E a minha rubra boca apaixonada
Teve a frescura pálida do linho.

Embriagou-me o teu beijo como um vinho
Fulvo de Espanha, em taça cinzelada,
E a minha cabeleira desatada
Pôs a teus pés a sombra dum caminho.

Minhas pálpebras são cor de verbena, 
Eu tenho os olhos garços, sou morena, 
E para te encontrar foi que eu nasci...

Tens sido vida fora o meu desejo, 
E agora, que te falo, que te vejo, 
Não sei se te encontrei, se te perdi...


Florbela Espanca
In ‘Charneca Em Flor’ 1931




VERSOS DE ORGULHO

O mundo quer-me mal porque ninguém
Tem asas como eu tenho! Porque Deus
Me fez nascer Princesa entre plebeus
Numa torre de orgulho e de desdém!

Porque o meu Reino fica para Além!
Porque trago no olhar os vastos céus,
E os oiros e os clarões são todos meus!
Porque Eu sou Eu e porque Eu sou Alguém!

O mundo! O que é o mundo, ó meu amor?!
O jardim dos meus versos todo em flor,
A seara dos teus beijos, pão bendito,

Meus êxtases, meus sonhos, meus cansaços...
São os teus braços dentro dos meus braços:
Via Láctea fechando o Infinito!...


Florbela Espanca
In ‘Charneca Em Flor’ 1931



A UM MORIBUNDO

Não tenhas medo, não! Tranqüilamente,
Como adormece a noite pelo Outono,
Fecha os teus olhos, simples, docemente,
Como, à tarde, uma pomba que tem sono...

A cabeça reclina levemente
E os braços deixa-os ir ao abandono,
Como tombam, arfando, ao sol poente,
As asas de uma pomba que tem sono...

O que há depois? Depois?... O azul dos céus?
Um outro mundo? O eterno nada? Deus?
Um abismo? Um castigo? Uma guarida?

Que importa? Que te importa, ó moribundo?
- Seja o que for, será melhor que o mundo! 
Tudo será melhor do que esta vida!...


Florbela Espanca
In ‘Charneca Em Flor’ 1931




PASSEIO AO CAMPO


Meu Amor! Meu Amante! Meu Amigo!
Colhe a hora que passa, hora divina,
Bebe-a dentro de mim, bebe-a comigo!
Sinto-me alegre e forte! Sou menina!

Eu tenho, Amor, a cinta esbelta e fina...
Pele doirada de alabastro antigo...
Frágeis mãos de madona florentina...
- Vamos correr e rir por entre o trigo! –

Há rendas de gramíneas pelos montes...
Papoilas rubras nos trigais maduros...
Água azulada a cintilar nas fontes...

E à volta, Amor... tornemos, nas alfombras 
Dos caminhos selvagens e escuros, 
Num astro só as nossas duas sombras!...


Florbela Espanca
In ‘Charneca Em Flor’ 1931



TARDE NO MAR

A tarde é de oiro rútilo: esbraseia
O horizonte: um cacto purpurino.
E a vaga esbelta que palpita e ondeia,
Com uma frágil graça de menino,

Poisa o manto de arminho na areia
E lá vai, e lá segue ao seu destino!
E o sol, nas casas brancas que incendeia.
Desenha mãos sangrentas de assassino!

Que linda tarde aberta sobre o mar!
Vai deitando do céu molhos de rosas
Que Apolo se entretém a desfolhar...

E, sobre mim, em gestos palpitantes,
As tuas mãos morenas, milagrosas, 
São as asas do sol, agonizantes...


Florbela Espanca
In ‘Charneca Em Flor’ 1931



MISTÉRIO


Gosto de ti, ó chuva, nos beirados,
Dizendo coisas que ninguém entende! 
Da tua cantilena se desprende 
Um sonho de magia e de pecados.

Dos teus pálidos dedos delicados
Uma alada canção palpita e ascende,
Frases que a nossa boca não aprende
Murmúrios por caminhos desolados.

Pelo meu rosto branco, sempre frio,
Fazes passar o lúgubre arrepio
Das sensações estranhas, dolorosas...

Talvez um dia entenda o teu mistério... 
Quando, inerte, na paz do cemitério,
O meu corpo matar a fome às rosas!


Florbela Espanca
In ‘Charneca Em Flor’ 1931


O MEU CONDÃO

Quis Deus dar-me o condão de ser sensível 
Como o diamante à luz que o alumia, 
Dar-me uma alma fantástica, impossível:
- Um bailado de cor e fantasia!

Quis Deus fazer de ti a ambrosia
Desta paixão estranha, ardente, incrível!
Erguer em mim o facho inextinguível,
Como um cinzel vincando uma agonia!

Quis Deus fazer-me tua... para nada!
- Vãos, os meus braços de crucificada, 
Inúteis, esses beijos que te dei!

Anda! Caminha! Aonde?... Mas por onde?...
Se a um gesto dos teus a sombra esconde
O caminho de estrelas que tracei...



Florbela Espanca
In ‘Charneca Em Flor’ 1931


AS MINHAS MÃOS


As minhas mãos magritas, afiladas,
Tão brancas como a água da nascente,
Lembram pálidas rosas entornadas
Dum regaço de Infanta do Oriente.

Mãos de ninfa, de fada, de vidente,
Pobrezinhas em sedas enroladas,
Virgens mortas em luz amortalhadas
Pelas próprias mãos de oiro do sol-poente.

Magras e brancas... Foram assim feitas...
Mãos de enjeitada porque tu me enjeitas...
Tão doces que elas são! Tão a meu gosto!

Pra que as quero eu - Deus! - Pra que as quero eu?!
Ó minhas mãos, aonde está o céu? 
...Aonde estão as linhas do teu rosto?


Florbela Espanca
In ‘Charneca Em Flor’ 1931


NOITINHA

A noite sobre nós se debruçou...
Minha alma ajoelha, põe as mãos e ora!
O luar, pelas colinas, nesta hora,
É água dum gomil que se entornou...

Não sei quem tanta pérola espalhou!
Murmura alguém pelas quebradas fora...
Flores do campo, humildes, mesmo agora.
A noite, os olhos brandos, lhes fechou...

Fumo beijando o colmo dos casais... 
Serenidade idílica de fontes, 
E a voz dos rouxinóis nos salgueirais...

Tranqüilidade... calma... anoitecer...
Num êxtase, eu escuto pelos montes
O coração das pedras a bater...


Florbela Espanca
In ‘Charneca Em Flor’ 1931


LEMBRANÇA


Fui Essa que nas ruas esmolou 
E fui a que habitou Paços Reais; 
No mármore de curvas ogivais 
Fui Essa que as mãos pálidas poisou...

Tanto poeta em versos me cantou!
Fiei o linho à porta dos casais...
Fui descobrir a Índia e nunca mais
Voltei! Fui essa nau que não voltou...

Tenho o perfil moreno, lusitano, 
E os olhos verdes, cor do verde Oceano, 
Sereia que nasceu de navegantes...

Tudo em cinzentas brumas se dilui... 
Ah, quem me dera ser Essas que eu fui, 
As que me lembro de ter sido... dantes!...


Florbela Espanca
In ‘Charneca Em Flor’ 1931


A NOSSA CASA

A nossa casa, Amor, a nossa casa!
Onde está ela, Amor, que não a vejo?
Na minha doida fantasia em brasa
Constrói-a, num instante, o meu desejo!

Onde está ela, Amor, a nossa casa,
O bem que neste mundo mais invejo?
O brando ninho aonde o nosso beijo
Será mais puro e doce que uma asa?

Sonho... que eu e tu, dois pobrezinhos, 
Andamos de mãos dadas, nos caminhos 
Duma terra de rosas, num jardim,

Num país de ilusão que nunca vi...
E que eu moro - tão bom! - dentro de ti
E tu, ó meu Amor, dentro de mim...


Florbela Espanca
In ‘Charneca Em Flor’ 1931


MENDIGA

Na vida nada tenho e nada sou;
Eu ando a mendigar pelas estradas...
No silêncio das noites estreladas
Caminho, sem saber para onde vou!

Tinha o manto do sol... quem mo roubou?!
Quem pisou minhas rosas desfolhadas?!
Quem foi que sobre as ondas revoltadas
A minha taça de oiro espedaçou?!

Agora vou andando e mendigando, 
Sem que um olhar dos mundos infinitos 
Veja passar o verme, rastejando...

Ah, quem me dera ser como os chacais
Uivando os brados, rouquejando os gritos
Na solidão dos ermos matagais!...


Florbela Espanca
In ‘Charneca Em Flor’ 1931


SUPREMO ENLEIO


Quanta mulher no teu passado, quanta!
Tanta sombra em redor! Mas que me importa?
Se delas veio o sonho que conforta,
A sua vinda foi três vezes santa!

Erva do chão que a mão de Deus levanta,
Folhas murchas de rojo à tua porta...
Quando eu for uma pobre coisa morta,
Quanta mulher ainda! Quanta! Quanta!

Mas eu sou a manhã: apago estrelas! 
Hás de ver-me, beijar-me em todas elas,
Mesmo na boca da que for mais linda!

E quando a derradeira, enfim, vier, 
Nesse corpo vibrante de mulher 
Será o meu que hás de encontrar ainda...


Florbela Espanca
In ‘Charneca Em Flor’ 1931


OUTONAL


Caem as folhas mortas sobre o lago;
Na penumbra outonal, não sei quem tece
As rendas do silêncio... Olha, anoitece!
- Brumas longínquas do País do Vago...

Veludos a ondear... Mistério mago...
Encantamento... A hora que não esquece,
A luz que a pouco e pouco desfalece,
Que lança em mim a bênção dum afago...

Outono dos crepúsculos doirados, 
De púrpuras, damascos e brocados!
- Vestes a terra inteira de esplendor!

Outono das tardinhas silenciosas, 
Das magníficas noites voluptuosas 
Em que eu soluço a delirar de amor...


Florbela Espanca
In ‘Charneca Em Flor’ 1931


MOCIDADE


A mocidade esplêndida, vibrante,
Ardente, extraordinária, audaciosa.
Que vê num cardo a folha duma rosa,
Na gota de água o brilho dum diamante;

Essa que fez de mim Judeu Errante 
Do espírito, a torrente caudalosa, 
Dos vendavais irmã tempestuosa,
- Trago-a em mim vermelha, triunfante!

No meu sangue rubis correm dispersos:
- Chamas subindo ao alto nos meus versos, 
Papoilas nos meus lábios a florir!

Ama-me doida, estonteadoramente,
O meu Amor! que o coração da gente
É tão pequeno... e a vida, água a fugir...

Florbela Espanca
In ‘Charneca Em Flor’ 1931


AMBICIOSA


Para aqueles fantasmas que passaram,
Vagabundos a quem jurei amar,
Nunca os meus braços lânguidos traçaram
O vôo dum gesto para os alcançar...

Se as minhas mãos em garra se cravaram
Sobre um amor em sangue a palpitar...
- Quantas panteras bárbaras mataram
Só pelo raro gosto de matar!

Minha alma é como a pedra funerária
Erguida na montanha solitária
Interrogando a vibração dos céus!

O amor dum homem? - Terra tão pisada!
Gota de chuva ao vento baloiçada...
Um homem? - Quando eu sonho o amor dum deus!...


Florbela Espanca
In ‘Charneca Em Flor’ 1931


FILTRO


Meu Amor, não é nada: - Sons marinhos
Numa concha vazia, choro errante...
Ah, olhos que não choram! Pobrezinhos...
Não há luz neste mundo que os levante!

Eu andarei por ti os maus caminhos
E as minhas mãos, abertas a diamante,
Hão de crucificar-se nos espinhos
Quando o meu peito for o teu mirante!

Para que corpos vis te não desejem, 
Hei de dar-te o meu corpo, e a boca minha 
Pra que bocas impuras te não beijem!

Como quem roça um lago que sonhou, 
Minhas cansadas asas de andorinha 
Hão-de prender-te todo num só vôo...


Florbela Espanca
In ‘Charneca Em Flor’ 1931


MAIS ALTO

Mais alto, sim! mais alto, mais além
Do sonho, onde morar a dor da vida,
Até sair de mim! Ser a Perdida,
A que se não encontra! Aquela a quem

O mundo não conhece por Alguém!
Ser orgulho, ser águia na subida,
Até chegar a ser, entontecida,
Aquela que sonhou o meu desdém!

Mais alto, sim! Mais alto! A Intangível! 
Turris Ebúrnea erguida nos espaços, 
A rutilante luz dum impossível!

Mais alto, sim! Mais alto! Onde couber 
O mal da vida dentro dos meus braços, 
Dos meus divinos braços de Mulher!


Florbela Espanca
In ‘Charneca Em Flor’ 1931


NERVOS D'OIRO


Meus nervos, guizos de oiro a tilintar
Cantam-me n'alma a estranha sinfonia
Da volúpia, da mágoa e da alegria,
Que me faz rir e que me faz chorar!

Em meu corpo fremente, sem cessar,
Agito os guizos de oiro da folia!
A Quimera, a Loucura, a Fantasia,
Num rubro turbilhão sinto-As passar!

O coração, numa imperial oferta. 
Ergo-o ao alto! E, sobre a minha mão, 
É uma rosa de púrpura, entreaberta!

E em mim, dentro de mim, vibram dispersos, 
Meus nervos de oiro, esplêndidos, que são 
Toda a Arte suprema dos meus versos!


Florbela Espanca
In ‘Charneca Em Flor’ 1931


A MINHA PIEDADE


A Bourbon e Meneses


Tenho pena de tudo quanto lida
Neste mundo, de tudo quanto sente,
Daquele a quem mentiram, de quem mente,
Dos que andam pés descalços pela vida,

Da rocha altiva, sobre o monte erguida,
Olhando os céus ignotos frente a frente,
Dos que não são iguais à outra gente,
E dos que se ensangüentam na subida!

Tenho pena de mim... pena de ti...
De não beijar o riso duma estrela...
Pena dessa má hora em que nasci...

De não ter asas para ir ver o céu... 
De não ser Esta... a Outra... e mais Aquela...
De ter vivido e não ter sido Eu...


Florbela Espanca
In ‘Charneca Em Flor’ 1931


SOU EU!

À minha ilustre camarada Laura haves

Pelos campos em fora, pelos combros,
Pelos montes que embalam a manhã,
Largo os meus rubros sonhos de pagã,
Enquanto as aves poisam nos meus ombros...

Em vão me sepultaram entre escombros 
De catedrais duma escultura vã! 
Olha-me o loiro sol tonto de assombros,
as nuvens, a chorar, chamam-me irmã!

Ecos longínquos de ondas... de universos.. 
Ecos dum Mundo... dum distante Além, 
Donde eu trouxe a magia dos meus versos!

Sou eu! Sou eu! A que nas mãos ansiosas 
Prendeu da vida, assim como ninguém, 
Os maus espinhos sem tocar nas rosas!


Florbela Espanca
In ‘Charneca Em Flor’ 1931


PANTEÍSMO

Ao Botto de Carvalho


Tarde de brasa a arder, sol de verão
Cingindo, voluptuoso, o horizonte...
Sinto-me luz e cor, ritmo e clarão
Dum verso triunfal de Anacreonte!

Vejo-me asa no ar, erva no chão,
Oiço-me gota de água a rir, na fonte,
E a curva altiva e dura do Marão
É o meu corpo transformado em monte!

E de bruços na terra penso e cismo
Que, neste meu ardente panteísmo
Nos meus sentidos postos e absortos

Nas coisas luminosas deste mundo, 
A minha alma é o túmulo profundo 
Onde dormem, sorrindo, os deuses mortos!


Florbela Espanca
In ‘Charneca Em Flor’ 1931


MINHA TERRA

A. J. Emídio Amaro


Ó minha terra na planície rasa,
Branca de sol e cal e de luar,
Minha terra que nunca viu o mar
Onde tenho o meu pão e a minha casa...

Minha terra de tardes sem uma asa,
Sem um bater de folha... a dormitar...
Meu anel de rubis a flamejar,
Minha terra mourisca a arder em brasa!

Minha terra onde meu irmão nasceu... 
Aonde a mãe que eu tive e que morreu, 
Foi moça e loira, amou e foi amada...

Truz... truz... truz... Eu não tenho onde me acoite,
Sou um pobre de longe, é quase noite... 
Terra, quero dormir... dá-me pousada!


Florbela Espanca
In ‘Charneca Em Flor’ 1931


Alvorecer

A noite empalidece. Alvorecer…
Ouve-se mais o gargalhar da fonte…
Sobre a cidade muda, o horizonte
É uma orquídea estranha a florescer.

Há andorinhas prontas a dizer
A missa d’alva, mal o sol desponte.
Gritos de galos soam monte em monte
Numa intensa alegria de viver.

Passos ao longe… um vulto que se esvai…
Em cada sombra Colombina trai…
Anda o silêncio em volta a q’rer falar…

E o luar que desmaia, macerado,
Lembra, pálido, tonto, esfarrapado,
Um Pierrot, todo branco, a soluçar…

Florbela Espanca
In ‘Charneca Em Flor’ 1931


SER POETA

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sêde de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de setim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma e sangue e vida em mim
E dizê-lo cantando a tôda gente!

Florbela Espanca
In ‘Charneca Em Flor’ 1931


SE TU VIESSES VER-ME...


Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços...

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca... o eco dos teus passos...
O teu riso de fonte... os teus abraços...
Os teus beijos... a tua mão na minha...

Se tu viesses quando, linda e louca, 
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo 
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca...
Quando os olhos se me cerram de desejo...
E os meus braços se estendem para ti...


Florbela Espanca
In ‘Charneca Em Flor’ 1931


A UMA RAPARIGA

À Nice


Abre os olhos e encara a vida! A sina
Tem que cumprir-se! Alarga os horizontes!
Por sobre lamaçais alteia pontes
Com tuas mãos preciosas de menina.

Nessa estrada da vida que fascina
Caminha sempre em frente, além dos montes!
Morde os frutos a rir! Bebe nas fontes!
Beija aqueles que a sorte te destina!

Trata por tu a mais longínqua estrela, 
Escava com as mãos a própria cova 
E depois, a sorrir, deita-te nela!

Que as mãos da terra façam, com amor, 
Da graça do teu corpo, esguia e nova, 
Surgir à luz a haste duma flor!...


Florbela Espanca
In ‘Charneca Em Flor’ 1931


MINHA CULPA

A Artur Ledesma


Sei lá! Sei lá! Eu sei lá bem
Quem sou?! Um fogo-fátuo, uma miragem...
Sou um reflexo... um canto de paisagem
Ou apenas cenário! Um vaivém...

Como a sorte: hoje aqui, depois além!
Sei lá quem Sou?! Sei lá! Sou a roupagem
Dum doido que partiu numa romagem
E nunca mais voltou! Eu sei lá quem!...

Sou um verme que um dia quis ser astro...
Uma estátua truncada de alabastro...
Uma chaga sangrenta do Senhor...

Sei lá quem sou?! Sei lá! Cumprindo os fados, 
Num mundo de vaidades e pecados, 
Sou mais um mau, sou mais um pecador...


Florbela Espanca
In ‘Charneca Em Flor’ 1931


TEUS OLHOS


Olhos do meu Amor! Infantes loiros
Que trazem os meus presos, endoidados!
Neles deixei, um dia, os meus tesoiros:
Meus anéis. minhas rendas, meus brocados.

Neles ficaram meus palácios moiros,
Meus carros de combate, destroçados,
Os meus diamantes, todos os meus oiros
Que trouxe d'Além-Mundos ignorados!

Olhos do meu Amor! Fontes... cisternas..
Enigmáticas campas medievais...
Jardins de Espanha... catedrais eternas...

Berço vinde do céu à minha porta...
Ó meu leite de núpcias irreais!...
Meu sumptuoso túmulo de morta!...


Florbela Espanca
In ‘Charneca Em Flor’ 1931


Nostalgia

Nesse país de lenda, que me encanta,
Ficaram meus brocados, que despi,
E as jóias que p´las aias reparti
Como outras rosas de Rainha Santa!

Tanta opala que eu tinha! Tanta, tanta!
Foi por lá que as semeei e que as perdi…
Mostrem-me esse País onde eu nasci!
Mostrem-me o reino de que eu sou infanta!

Ó meu país de sonho e de ansiedade,
Não sei se esta quimera que me assombra,
É feita de mentira ou de verdade!

Quero voltar! Não sei por onde vim…
Ah! Não ser mais que a sombra duma sombra
Por entre tanta sombra igual a mim!

Florbela Espanca
In ‘Charneca Em Flor’ 1931



Interrogação

Neste tormento inútil, neste empenho
De tornar em silêncio o que em mim canta,
Sobem-me roucos brados à garganta
Num clamor de loucura que contenho.

Ó alma da charneca sacrossanta,
Irmã da alma rútila que eu tenho,
Dize para onde eu vou, donde é que venho
Nesta dor que me exalta e me alevanta!

Visões de mundos novos, de infinitos,
Cadências de soluços e de gritos,
Fogueira a esbrasear que me consome!

Dize que mão é esta que me arrasta?
Nódoa de sangue que palpita e alastra…
Dize de que é que eu tenho sede e fome?!

Florbela Espanca
In ‘Charneca Em Flor’ 1931


Volúpia

No divino impudor da mocidade,
Nesse êxtase pagão que vence a sorte,
Num frémito vibrante de ansiedade,
Dou-te o meu corpo prometido à morte!

A sombra entre a mentira e a verdade…
A núvem que arrastou o vento norte…
— Meu corpo! Trago nele um vinho forte:
Meus beijos de volúpia e de maldade!

Trago dálias vermelhas no regaço…
São os dedos do sol quando te abraço,
Cravados no teu peito como lanças!

E do meu corpo os leves arabescos
Vão-te envolvendo em círculos dantescos
Felinamente, em voluptuosas danças…

Florbela Espanca
In ‘Charneca Em Flor’ 1931


Não Ser

Quem me dera voltar à inocência
Das coisas brutas, sãs, inanimadas,
Despir o vão orgulho, a incoerência:
- Mantos rotos de estátuas mutiladas!

Ah! arrancar às carnes laceradas
Seu mísero segredo de consciência!
Ah! poder ser apenas florescência
De astros em puras noites deslumbradas!

Ser nostálgico choupo ao entardecer,
De ramos graves, plácidos, absortos
Na mágica tarefa de viver!

Ser haste, seiva, ramaria inquieta,
Erguer ao sol o coração dos mortos
Na urna de oiro duma flor aberta!…

Florbela Espanca
In ‘Charneca Em Flor’ 1931



In memoriam
Ao meu morto querido

Na cidade de Assis, Il Poverello
Santo, três vezes santo, andou pregando
Que o sol, a terra, a flor, o rocio brando,
Da pobreza o tristíssimo flagelo,

Tudo quanto há de vil, quanto há de belo,
Tudo era nosso irmão! - E assim sonhando,
Pelas estradas da Umbria foi forjando
Da cadeia do amor o maior elo!

“Olha o nosso irmão Sol, nossa irmã Água…”
Ah! Poverello! Em mim, essa lição
Perdeu-se como vela em mar de mágoa

Batida por furiosos vendavais!
- Eu fui na vida a irmã de um só irmão,
E já não sou a irmã de ninguém mais!


Florbela Espanca
In ‘Charneca Em Flor’ 1931


POBRE DE CRISTO

A José Emídio Amaro

Ó minha terra na planície rasa,
Branca de sol e cal e de luar,
Minha terra que nunca viste o mar,
Onde tenho o meu pão e a minha casa.

Minha terra de tardes sem uma asa,
Sem um bater de folhas...a dormitar...
Meu anel de rubis a flamejar,
Minha terra moirisca a arder em brasa!

Minha terra onde meu irmão nasceu
Aonde a mãe que eu tive e que morreu
Foi moça e loira, amou e foi amada!

Truz...Truz...Truz... -- Eu não tenho onde me acoite,
Sou um pobre de longe, é quase noite,
Terra, quero dormir, dá-me pousada!...

Florbela Espanca
In ‘Charneca Em Flor’ 1931


He hum não querer mais que bem querer; (Camões) 

I

Gosto de ti apaixonadamente,
De ti que és a vitória, a salvação,
De ti que me trouxeste pela mão
Até ao brilho desta chama quente.

A tua linda voz de água corrente
Ensinou-me a cantar... e essa canção
Foi ritmo nos meus versos de paixão,
Foi graça no meu peito de descrente.

Bordão a amparar minha cegueira, 
Da noite negra o mágico farol, 
Cravos rubros a arder numa fogueira!

E eu, que era neste mundo uma vencida,
Ergo a cabeça ao alto, encaro o sol!
- Águia real, apontas-me a subida!


Florbela Espanca
In ‘Charneca Em Flor’ 1931


He hum não querer mais que bem querer; (Camões) 

II

Meu Amor, meu Amado, vê... repara:
Poisa os teus lindos olhos de oiro em mim,
- Dos meus beijos de amor Deus fez-me avara
Para nunca os contares até ao fim.

Meus olhos têm tons de pedra rara, 
E só para teu bem que os tenho assim 
-E as minhas mãos são fontes de água clara 
A cantar sobre a sede dum jardim.

Sou triste como a folha ao abandono 
Num parque solitário, pelo Outono, 
Sobre um lago onde vogam nenúfares...

Deus fez-me atravessar o teu caminho...
- Que contas dás a Deus indo sozinho, 
Passando junto a mim, sem me encontrares? –


Florbela Espanca
In ‘Charneca Em Flor’ 1931


He hum não querer mais que bem querer; (Camões) 

III

Frêmito do meu corpo a procurar-te,
Febre das minhas mãos na tua pele
Que cheira a âmbar, a baunilha e a mel,
Doido anseio dos meus braços a abraçar-te,

Olhos buscando os teus por toda a parte,
Sede de beijos, amargor de fel,
Estonteante fome, áspera e cruel,
Que nada existe que a mitigue e a farte!

E vejo-te tão longe! Sinto a tua alma
Junto da minha, uma lagoa calma,
A dizer-me, a cantar que me não amas...
E o meu coração que tu não sentes, 

Vai boiando ao acaso das correntes, 
Esquife negro sobre um mar de chamas...


Florbela Espanca
In ‘Charneca Em Flor’ 1931


He hum não querer mais que bem querer; (Camões) 

IV

És tu! És tu! Sempre vieste, enfim!
Oiço de novo o riso dos teus passos!
És tu que eu vejo a estender-me os braços
Que Deus criou pra me abraçar a mim!

Tudo é divino e santo visto assim.
Foram-se os desalentos, os cansaços..
O mundo não é mundo: é um jardim!
Um céu aberto: longes, os espaços!

Prende-me toda, Amor, prende-me bem!
Que vês tu em redor? Não há ninguém!
A terra? - Um astro morto que flutua...

Tudo o que é chama a arder, tudo o que sente
Tudo o que é vida e vibra eternamente
É tu seres meu, Amor, e eu ser tua!


Florbela Espanca
In ‘Charneca Em Flor’ 1931


He hum não querer mais que bem querer; (Camões) 

V

Dize-me, Amor, como te sou querida,
Conta-me a glória do teu sonho eleito,
Aninha-me a sorrir junto ao teu peito,
Arranca-me dos pântanos da vida.

Embriagada numa estranha lida,
Trago nas mãos o coração desfeito,
Mostra-me a luz, ensina-me o preceito
Que me salve e levante redimida!

Nesta negra cisterna em que me afundo. 
Sem quimeras, sem crenças, sem ternura, 
Agonia sem fé dum moribundo,
Grito o teu nome numa sede estranha, 

Como se fosse, Amor, toda a frescura 
Das cristalinas águas da montanha!


In ‘Charneca Em Flor’ 1931




He hum não querer mais que bem querer; (Camões) 

VI


Falo de ti às pedras das estradas,
E ao sol que é loiro como o teu olhar,
Falo ao rio, que desdobra a faiscar,
Vestidos de Princesas e de Fadas;

Falo às gaivotas de asas desdobradas,
Lembrando lenços brancos a acenar,
E aos mastros que apunhalam o luar
Na solidão das noites consteladas;

Digo os anseios, os sonhos, os desejos
Donde a tua alma, tonta de vitória
Levanta ao céu a torre dos meus beijos!

E os meus gritos de amor, cruzando o espaço, 
Sobre os brocados fúlgidos da glória, 
São astros que me tombam do regaço!



In ‘Charneca Em Flor’ 1931



He hum não querer mais que bem querer; (Camões) 


VII

São mortos os que nunca acreditaram
Que esta vida é somente uma passagem,
Um atalho sombrio, uma paisagem
Onde os nossos sentidos se poisaram.

São mortos os que nunca alevantaram
Dentre escombros a Torre de Menagem
Dos seus sonhos de orgulho e de coragem,
E os que não riram e os que não choraram.

Que Deus faça de mim, quando eu morrer, 
Quando eu partir para o País da Luz, 
A sombra calma dum entardecer,

Tombando, em doces pregas de mortalha, 
Sobre o teu corpo heróico, posto em cruz, 
Na solidão dum campo de batalha!


Florbela Espanca
In ‘Charneca Em Flor’ 1931




He hum não querer mais que bem querer; (Camões) 


VIII

Abrir os olhos, procurar a luz, 
De coração erguido ao alto, em chama, 
Que tudo neste mundo se reduz 
A ver os astros cintilar na lama!

Amar o sol da glória e a voz da fama
Que em clamorosos gritos se traduz!
Com misericórdia, amar quem nos não ama,
E deixar que nos preguem numa cruz!

Sobre um sonho desfeito erguer a torre 
Doutro sonho mais alto e, se esse morre, 
Mais outro e outro ainda, toda a vida!

Que importa que nos vençam desenganos, 
Se pudermos contar os nossos anos 
Assim como degraus duma subida?


Florbela Espanca
In ‘Charneca Em Flor’ 1931



He hum não querer mais que bem querer; (Camões) 

IX


Perdi os meus fantásticos castelos
Como névoa distante que se esfuma...
Quis vencer, quis lutar, quis defendê-los:
Quebrei as minhas lanças uma a uma!

Perdi minhas galeras entre os gelos
Que se afundaram sobre um mar de bruma...
- Tantos escolhos! Quem podia vê-los? -
Deitei-me ao mar e não salvei nenhuma!

Perdi a minha taça, o meu anel, 
A minha cota de aço, o meu corcel, 
Perdi meu elmo de oiro e pedrarias...

Sobem-me aos lábios súplicas estranhas...
Sobre o meu coração pesam montanhas...
Olho assombrada as minhas mãos vazias...


Florbela Espanca
In ‘Charneca Em Flor’ 1931



He hum não querer mais que bem querer; (Camões) 

X


Eu queria mais altas as estrelas,
Mais largo o espaço, o sol mais criador,
Mais refulgente a lua, o mar maior,
Mais cavadas as ondas e mais belas;

Mais amplas, mais rasgadas as janelas
Das almas, mais rosais a abrir em flor,
Mais montanhas, mais asas de condor,
Mais sangue sobre a cruz das caravelas!

E abrir os braços e viver a vida,
- Quanto mais funda e lúgubre a descida
Mais alta é a ladeira que não cansa!

E, acabada a tarefa... em paz, contente, 
Um dia adormecer, serenamente, 
Como dorme no berço uma criança!


Florbela Espanca
In ‘Charneca Em Flor’ 1931

















POEMAS DO " LIVRO DE MÁGOAS"




ESTE LIVRO... 

Este livro é de mágoas. Desgraçados 
Que no mundo passais, chorai ao lê-lo! 
Somente a vossa dor de Torturados 
Pode, talvez, senti-lo... e compreendê-lo. 

Este livro é para vós. Abençoados 
Os que o sentirem, sem ser bom nem belo! 
Bíblia de tristes... Ó Desventurados, 
Que a vossa imensa dor se acalme ao vê-lo! 

Livro de Mágoas... Dores... Ansiedades! 
Livro de Sombras... Névoas e Saudades! 
Vai pelo mundo... (Trouxe-o no meu seio...) 

Irmãos na Dor, os olhos rasos de água, 
Chorai comigo a minha imensa mágoa, 
Lendo o meu livro só de mágoas cheio! ... 


Florbela Espanca
In ‘Livro de Mágoas’


VAIDADE 

Sonho que sou a Poetisa eleita, 
Aquela que diz tudo e tudo sabe, 
Que tem a inspiração pura e perfeita, 
Que reúne num verso a imensidade! 

Sonho que um verso meu tem claridade 
Para encher todo o mundo! E que deleita 
Mesmo aqueles que morrem de saudade! 
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita! 

Sonho que sou Alguém cá neste mundo... 
Aquela de saber vasto e profundo, 
Aos pés de quem a Terra anda curvada! 

E quando mais no céu eu vou sonhando, 
E quando mais no alto ando voando, 
Acordo do meu sonho... E não sou nada! ... 


Florbela Espanca
In ‘Livro de Mágoas’


EU 


Eu sou a que no mundo anda perdida, 
Eu sou a que na vida não tem norte, 
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte 
Sou a crucificada ... a dolorida ... 

Sombra de névoa tênue e esvaecida, 
E que o destino amargo, triste e forte, 
Impele brutalmente para a morte! 
Alma de luto sempre incompreendida! ... 

Sou aquela que passa e ninguém vê ... 
Sou a que chamam triste sem o ser ... 
Sou a que chora sem saber porquê ... 

Sou talvez a visão que Alguém sonhou, 
Alguém que veio ao mundo pra me ver 
E que nunca na vida me encontrou! 


Florbela Espanca
In ‘Livro de Mágoas’



CASTELÃ DA TRISTEZA 


Altiva e couraçada de desdém, 
Vivo sozinha em meu castelo: a Dor! 
Passa por ele a luz de todo o amor... 
E nunca em meu castelo entrou alguém! 

Castelã da Tristeza, vês? ... A quem? ... 
– E o meu olhar é interrogador – 
Perscruto, ao longe, as sombras do sol-pôr... 
Chora o silêncio... nada... ninguém vem... 

Castelã da Tristeza, porque choras 
Lendo, toda de branco, um livro de horas, 
À sombra rendilhada dos vitrais? ... 

À noite, debruçada, plas ameias, 
Porque rezas baixinho?... Porque anseias? ... 
Que sonho afagam tuas mãos reais? ... 


Florbela Espanca
In ‘Livro de Mágoas’



TORTURA 


Tirar dentro do peito a Emoção, 
A lúcida Verdade, o Sentimento! 
– E ser, depois de vir do coração, 
Um punhado de cinza esparso ao vento! ...

Sonhar um verso de alto pensamento, 
E puro como um ritmo de oração! 
– E ser, depois de vir do coração, 
O pó, o nada, o sonho dum momento... 

São assim ocos, rudes, os meus versos: 
Rimas perdidas, vendavais dispersos, 
Com que eu iludo os outros, com que minto! 

Quem me dera encontrar o verso puro, 
O verso altivo e forte, estranho e duro, 
Que dissesse, a chorar, isto que sinto!! 


Florbela Espanca
In ‘Livro de Mágoas’



LÁGRIMAS OCULTAS 


Se me ponho a cismar em outras eras 
Em que ri e cantei, em que era querida, 
Parece-me que foi noutras esferas, 
Parece-me que foi numa outra vida... 

E a minha triste boca dolorida, 
Que dantes tinha o rir das primaveras, 
Esbate as linhas graves e severas 
E cai num abandono de esquecida! 

E fico, pensativa, olhando o vago... 
Toma a brandura plácida dum lago 
O meu rosto de monja de marfim... 

E as lágrimas que choro, branca e calma, 
Ninguém as vê brotar dentro da alma! 
Ninguém as vê cair dentro de mim! 


Florbela Espanca
In ‘Livro de Mágoas’


TORRE DE NÉVOA 

Subi ao alto, à minha Torre esguia, 
Feita de fumo, névoas e luar, 
E pus-me, comovida, a conversar 
Com os poetas mortos, todo o dia. 

Contei-lhes os meus sonhos, a alegria 
Dos versos que são meus, do meu sonhar, 
E todos os poetas, a chorar, 
Responderam-me então: “Que fantasia, 

Criança doida e crente! Nós também 
Tivemos ilusões, como ninguém, 
E tudo nos fugiu, tudo morreu!...”

Calaram-se os poetas, tristemente... 
E é desde então que eu choro amargamente 
Na minha Torre esguia junto ao céu! ...


Florbela Espanca
In ‘Livro de Mágoas’



A MINHA DOR 

À você 


A minha Dor é um convento ideal 
Cheio de claustros, sombras, arcarias, 
Aonde a pedra em convulsões sombrias 
Tem linhas dum requinte escultural. 

Os sinos têm dobres de agonias 
Ao gemer, comovidos, o seu mal... 
E todos têm sons de funeral 
Ao bater horas, no correr dos dias... 

A minha Dor é um convento. Há lírios 
Dum roxo macerado de martírios, 
Tão belos como nunca os viu alguém! 

Nesse triste convento aonde eu moro, 
Noites e dias rezo e grito e choro, 
E ninguém ouve... ninguém vê... ninguém... 


Florbela Espanca
In ‘Livro de Mágoas’


DIZERES ÍNTIMOS 


É tão triste morrer na minha idade! 
E vou ver os meus olhos, penitentes 
Vestidinhos de roxo, como crentes 
Do soturno convento da Saudade! 

E logo vou olhar (com que ansiedade! ...) 
As minhas mãos esguias, languescentes, 
De brancos dedos, uns bebês doentes 
Que hão-de morrer em plena mocidade! 

E ser-se novo é ter-se o Paraíso, 
É ter-se a estrada larga, ao sol, florida, 
Aonde tudo é luz e graça e riso! 

E os meus vinte e três anos... (Sou tão nova!) 
Dizem baixinho a rir: “Que linda a vida!...” 
Responde a minha Dor: “Que linda a cova!” 


Florbela Espanca
In ‘Livro de Mágoas’



AS MINHAS ILUSÕES 


Hora sagrada dum entardecer 
De Outono, à beira-mar, cor de safira, 
Soa no ar uma invisível lira... 
O sol é um doente a enlanguescer... 

A vaga estende os braços a suster, 
Numa dor de revolta cheia de ira, 
A doirada cabeça que delira 
Num último suspiro, a estremecer! 

O sol morreu... e veste luto o mar ... 
E eu vejo a urna de oiro, a balouçar, 
À flor das ondas, num lençol de espuma. 

As minhas Ilusões, doce tesoiro, 
Também as vi levar em urna de oiro, 
No mar da Vida, assim... uma por uma ... 


Florbela Espanca
In ‘Livro de Mágoas’


NEURASTENIA 


Sinto hoje a alma cheia de tristeza! 
Um sino dobra em mim Ave-Maria! 
Lá fora, a chuva, brancas mãos esguias, 
Faz na vidraça rendas de Veneza ... 

O vento desgrenhado chora e reza 
Por alma dos que estão nas agonias! 
E flocos de neve, aves brancas, frias, 
Batem as asas pela Natureza... 

Chuva... tenho tristeza! Mas porquê?! 
Vento... tenho saudades! Mas de quê?! 
Ó neve que destino triste o nosso! 

Ó chuva! Ó vento! Ó neve! Que tortura! 
Gritem ao mundo inteiro esta amargura, 
Digam isto que sinto que eu não posso!! ... 


Florbela Espanca
In ‘Livro de Mágoas’


PEQUENINA 


À Maria Helena Falcão Risques 
És pequenina e ris... A boca breve 
É um pequeno idílio cor-de-rosa... 
Haste de lírio frágil e mimosa! 

Cofre de beijos feito sonho e neve! 
Doce quimera que a nossa alma deve 
Ao Céu que assim te faz tão graciosa! 
Que nesta vida amarga e tormentosa 

Te fez nascer como um perfume leve! 
O ver o teu olhar faz bem à gente... 
E cheira e sabe, a nossa boca, a flores 

Quando o teu nome diz, suavemente... 
Pequenina que a Mãe de Deus sonhou, 
Que ela afaste de ti aquelas dores 
Que fizeram de mim isto que sou! 


Florbela Espanca
In ‘Livro de Mágoas’



A MAIOR TORTURA 

A um grande poeta de Portugal! 


Na vida, para mim, não há deleite. 
Ando a chorar convulsa noite e dia... 
E não tenho uma sombra fugidia 
Onde poise a cabeça, onde me deite! 

E nem flor de lilás tenho que enfeite 
A minha atroz, imensa nostalgia! ... 
A minha pobre Mãe tão branca e fria 
Deu-me a beber a Mágoa no seu leite! 

Poeta, eu sou um cardo desprezado, 
A urze que se pisa sob os pés. 
Sou, como tu, um riso desgraçado! 

Mas a minha tortura inda é maior: 
Não ser poeta assim como tu és 
Para gritar num verso a minha Dor! ... 


Florbela Espanca
In ‘Livro de Mágoas’


A FLOR DO SONHO 


A Flor do Sonho, alvíssima, divina, 
Miraculosamente abriu em mim, 
Como se uma magnólia de cetim 
Fosse florir num muro todo em ruína. 

Pende em meu seio a haste branda e fina 
E não posso entender como é que, enfim, 
Essa tão rara flor abriu assim! ... 
Milagre... fantasia ... ou, talvez, sina ... 

Ó Flor que em mim nasceste sem abrolhos, 
Que tem que sejam tristes os meus olhos 
Se eles são tristes pelo amor de ti?! ... 

Desde que em mim nasceste em noite calma, 
Voou ao longe a asa da minh’alma 
E nunca, nunca mais eu me entendi... 

Florbela Espanca
In ‘Livro de Mágoas’


NOITE DE SAUDADE 


A Noite vem poisando devagar 
Sobre a Terra, que inunda de amargura... 
E nem sequer a bênção do luar 
A quis tornar divinamente pura... 

Ninguém vem atrás dela a acompanhar 
A sua dor que é cheia de tortura... 
E eu oiço a Noite imensa soluçar! 
E eu oiço soluçar a Noite escura! 

Por que és assim tão escura, assim tão triste?! 
É que, talvez, ó Noite, em ti existe 
Uma Saudade igual à que eu contenho! 

Saudade que eu sei donde me vem... 
Talvez de ti, ó Noite! ... Ou de ninguém! ... 
Que eu nunca sei quem sou, nem o que tenho!! 


Florbela Espanca
In ‘Livro de Mágoas’


ANGÚSTIA 


Tortura do pensar! Triste lamento! 
Quem nos dera calar a tua voz! 
Quem nos dera cá dentro, muito a sós, 
Estrangular a hidra num momento! 

E não se quer pensar! ... e o pensamento 
Sempre a morder-nos bem, dentro de nós... 
Querer apagar no céu – ó sonho atroz! – 
O brilho duma estrela, com o vento! ... 

E não se apaga, não... nada se apaga! 
Vem sempre rastejando como a vaga... 
Vem sempre perguntando: “O que te resta?...” 

Ah! não ser mais que o vago, o infinito! 
Ser pedaço de gelo, ser granito, 
Ser rugido de tigre na floresta! 


Florbela Espanca
In ‘Livro de Mágoas’


AMIGA 


Deixa-me ser a tua amiga, Amor, 
A tua amiga só, já que não queres 
Que pelo teu amor seja a melhor, 
A mais triste de todas as mulheres. 

Que só, de ti, me venha mágoa e dor 
O que me importa a mim?! O que quiseres 
É sempre um sonho bom! Seja o que for, 
Bendito sejas tu por mo dizeres! 

Beija-me as mãos, Amor, devagarinho... 
Como se os dois nascêssemos irmãos, 
Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho ... 

Beija-mas bem! ... Que fantasia louca 
Guardar assim, fechados, nestas mãos 
Os beijos que sonhei prà minha boca! ... 


Florbela Espanca
In ‘Livro de Mágoas’


DESEJOS VÃOS 


Eu queria ser o Mar de altivo porte 
Que ri e canta, a vastidão imensa! 
Eu queria ser a Pedra que não pensa, 
A pedra do caminho, rude e forte! 

Eu queria ser o Sol, a luz imensa, 
O bem do que é humilde e não tem sorte! 
Eu queria ser a árvore tosca e densa 
Que ri do mundo vão e até a morte! 

Mas o Mar também chora de tristeza... 
As árvores também, como quem reza, 
Abrem, aos Céus, os braços, como um crente! 

E o Sol altivo e forte, ao fim de um dia, 
Tem lágrimas de sangue na agonia! 
E as Pedras... essas... pisa-as toda a gente! ... 


Florbela Espanca
In ‘Livro de Mágoas’



PIOR VELHICE 

Sou velha e triste. Nunca o alvorecer 
Dum riso são andou na minha boca! 
Gritando que me acudam, em voz rouca, 
Eu, náufraga da Vida, ando a morrer! 

A Vida, que ao nascer, enfeita e touca 
De alvas rosas a fronte da mulher, 
Na minha fronte mística de louca 
Martírios só poisou a emurchecer! 

E dizem que sou nova ... A mocidade 
Estará só, então, na nossa idade, 
Ou está em nós e em nosso peito mora?! 

Tenho a pior velhice, a que é mais triste, 
Aquela onde nem sequer existe 
Lembrança de ter sido nova ... outrora ... 


Florbela Espanca
In ‘Livro de Mágoas’

A UM LIVRO 


No silêncio de cinzas do meu Ser 
Agita-se uma sombra de cipreste, 
Sombra roubada ao livro que ando a ler, 
A esse livro de mágoas que me deste. 

Estranho livro aquele que escreveste, 
Artista da saudade e do sofrer! 
Estranho livro aquele em que puseste 
Tudo o que eu sinto, sem poder dizer! 

Leio-o, e folheio, assim, toda a minh’alma! 
O livro que me deste é meu, e salma 
As orações que choro e rio e canto! ... 

Poeta igual a mim, ai que me dera 
Dizer o que tu dizes! ... Quem soubera 
Velar a minha Dor desse teu manto! ...


Florbela Espanca
In ‘Livro de Mágoas’


ALMA PERDIDA 


Toda esta noite o rouxinol chorou, 
Gemeu, rezou, gritou perdidamente! 
Alma de rouxinol, alma da gente, 
Tu és, talvez, alguém que se finou! 

Tu és, talvez, um sonho que passou, 
Que se fundiu na Dor, suavemente... 
Talvez sejas a alma, a alma doente 
Dalguém que quis amar e nunca amou! 

Toda a noite choraste... e eu chorei 
Talvez porque, ao ouvir-te, adivinhei 
Que ninguém é mais triste do que nós! 

Contaste tanta coisa à noite calma, 
Que eu pensei que tu eras a minh’alma 
Que chorasse perdida em tua voz! ... 


Florbela Espanca
In ‘Livro de Mágoas’


DE JOELHOS 


“Bendita seja a Mãe que te gerou.” 
Bendito o leite que te fez crescer 
Bendito o berço aonde te embalou 
A tua ama, pra te adormecer! 

Bendita essa canção que acalentou 
Da tua vida o doce alvorecer... 
Bendita seja a Lua, que inundou 
De luz, a Terra, só para te ver... 

Benditos sejam todos que te amarem, 
As que em volta de ti ajoelharem 
Numa grande paixão fervente e louca! 

E se mais que eu, um dia, te quiser 
Alguém, bendita seja essa Mulher, 
Bendito seja o beijo dessa boca!! 


Florbela Espanca
In ‘Livro de Mágoas’



LANGUIDEZ 

Tardes da minha terra, doce encanto, 
Tardes duma pureza de açucenas, 
Tardes de sonho, as tardes de novenas, 
Tardes de Portugal, as tardes de Anto, 

Como eu vos quero e amo! Tanto! Tanto! 
Horas benditas, leves como penas, 
Horas de fumo e cinza, horas serenas, 
Minhas horas de dor em que eu sou santo! 

Fecho as pálpebras roxas, quase pretas, 
Que poisam sobre duas violetas, 
Asas leves cansadas de voar... 

E a minha boca tem uns beijos mudos... 
E as minhas mãos, uns pálidos veludos, 
Traçam gestos de sonho pelo ar... 


Florbela Espanca
In ‘Livro de Mágoas’


PARA QUÊ?! 


Tudo é vaidade neste mundo vão... 
Tudo é tristeza, tudo é pó, é nada! 
E mal desponta em nós a madrugada, 
Vem logo a noite encher o coração! 

Até o amor nos mente, essa canção 
Que o nosso peito ri à gargalhada, 
Flor que é nascida e logo desfolhada, 
Pétalas que se pisam pelo chão! ... 

Beijos de amor! Pra quê?! ... Tristes vaidades! 
Sonhos que logo são realidades, 
Que nos deixam a alma como morta! 

Só neles acredita quem é louca! 
Beijos de amor que vão de boca em boca, 
Como pobres que vão de porta em porta! ... 


Florbela Espanca
In ‘Livro de Mágoas’



AO VENTO 

O vento passa a rir, torna a passar, 
Em gargalhadas ásperas de demente; 
E esta minh’alma trágica e doente 
Não sabe se há-de rir, se há-de chorar! 

Vento de voz tristonha, voz plangente, 
Vento que ris de mim sempre a troçar, 
Vento que ris do mundo e do amor, 
A tua voz tortura toda a gente! ... 

Vale-te mais chorar, meu pobre amigo! 
Desabafa essa dor a sós comigo, 
E não rias assim! ... Ó vento, chora! 

Que eu bem conheço, amigo, esse fadário 
Do nosso peito ser como um Calvário, 
e a gente andar a rir pla vida fora!! ... 


Florbela Espanca
In ‘Livro de Mágoas’



TÉDIO 


Passo pálida e triste. Oiço dizer: 
“Que branca que ela é! Parece morta!” 
e eu que vou sonhando, vaga, absorta, 
não tenho um gesto, ou um olhar sequer ... 

Que diga o mundo e a gente o que quiser! 
– O que é que isso me faz? O que me importa? ... 
O frio que trago dentro gela e corta 
Tudo que é sonho e graça na mulher! 

O que é que me importa?! Essa tristeza 
É menos dor intensa que frieza, 
É um tédio profundo de viver! 

E é tudo sempre o mesmo, eternamente... 
O mesmo lago plácido, dormente... 
E os dias, sempre os mesmos, a correr... 


Florbela Espanca
In ‘Livro de Mágoas’


A MINHA TRAGÉDIA 

Tenho ódio à luz e raiva à claridade 
Do sol, alegre, quente, na subida. 
Parece que a minh’alma é perseguida 
Por um carrasco cheio de maldade! 

Ó minha vã, inútil mocidade, 
Trazes-me embriagada, entontecida! ... 
Duns beijos que me deste noutra vida, 
Trago em meus lábios roxos, a saudade! ..
Eu não gosto do sol, eu tenho medo 
Que me leiam nos olhos o segredo 
De não amar ninguém, de ser assim! 

Gosto da Noite imensa, triste, preta, 
Como esta estranha e doida borboleta 
Que eu sinto sempre a voltejar em mim! ... 


Florbela Espanca
In ‘Livro de Mágoas’


SEM REMÉDIO 


Aqueles que me têm muito amor 
Não sabem o que sinto e o que sou... 
Não sabem que passou, um dia, a Dor 
À minha porta e, nesse dia, entrou. 

E é desde então que eu sinto este pavor, 
Este frio que anda em mim, e que gelou 
O que de bom me deu Nosso Senhor! 
Se eu nem sei por onde ando e onde vou!! 

Sinto os passos da Dor, essa cadência 
Que é já tortura infinda, que é demência! 
Que é já vontade doida de gritar! 

E é sempre a mesma mágoa, o mesmo tédio, 
A mesma angústia funda, sem remédio, 
Andando atrás de mim, sem me largar! 


Florbela Espanca
In ‘Livro de Mágoas’


MAIS TRISTE 


É triste, diz a gente, a vastidão 
Do mar imenso! E aquela voz fatal 
Com que ele fala, agita o nosso mal! 
E a Noite é triste como a Extrema-Unção! 

É triste e dilacera o coração 
Um poente do nosso Portugal! 
E não vêem que eu sou... eu... afinal, 
A coisa mais magoada das que são?! ... 

Poentes de agonia trago-os eu 
Dentro de mim e tudo quanto é meu 
É um triste poente de amargura! 

E a vastidão do Mar, toda essa água 
Trago-a dentro de mim num mar de Mágoa! 
E a noite sou eu própria! A Noite escura!! 


Florbela Espanca
In ‘Livro de Mágoas’


VELHINHA 


Se os que me viram já cheia de graça 
Olharem bem de frente em mim, 
Talvez, cheios de dor, digam assim: 
“Já ela é velha! Como o tempo passa!...” 

Não sei rir e cantar por mais que faça! 
Ó minhas mãos talhadas em marfim, 
Deixem esse fio de oiro que esvoaça! 
Deixem correr a vida até o fim! 

Tenho vinte e três anos! Sou velhinha! 
Tenho cabelos brancos e sou crente... 
Já murmuro orações... falo sozinha ... 

E o bando cor-de-rosa dos carinhos 
Que tu me fazes, olho-os indulgente, 
Como se fosse um bando de netinhos... 


Florbela Espanca
In ‘Livro de Mágoas’


EM BUSCA DO AMOR 


O meu Destino disse-me a chorar: 
“Pela estrada da Vida vai andando, 
E, aos que vires passar, interrogando 
Acerca do Amor, que hás-de encontrar.” 

Fui pela estrada a rir e a cantar, 
As contas do meu sonho desfilando... 
E noite e dia, à chuva e ao luar, 
Fui sempre caminhando e perguntando... 

Mesmo a um velho eu perguntei: “Velhinho, 
Viste o Amor acaso em teu caminho?”
E o velho estremeceu... olhou... e riu ... 

Agora pela estrada, já cansados, 
Voltam todos pra trás desanimados... 
E eu paro a murmurar: “Ninguém o viu!...” 


Florbela Espanca
In ‘Livro de Mágoas’